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quarta-feira, 31 de julho de 2019

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS - DÉCIMO OITAVO DOMINGO COMUM



Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

Ouvindo a boa nova do Reino de Deus relatada por Lucas caminhamos com Jesus rumo à Jerusalém. Nessa caminhada, fazemos de novo uma parada para nos reunirmos em assembléia litúrgica. Celebramos a páscoa cristã, dia do Senhor, dia da Comunidade. Como seria salutar para a humanidade, resgatar o valor do Domingo, o Dia do Senhor. Guardar o Domingo para o Senhor, para o descanso pessoal e para a Família, talvez seja um exercício que resgate a dignidade humana, engolida pela Cultura do Consumo, do Descartável, que por sua vez, leva a humanidade à ganância, ao egoísmo, ao intimismo, enfim, à Cultura da Morte em plena vida.
            Hoje para celebrar a raiz de nossa fé cristã – a morte e ressurreição do Senhor Jesus – a Palavra nos traz à consciência o que é fundamental para que nossa vida, de fato, tenha sentido.
            “Vaidade das Vaidades” recorda-nos o autor sagrado. Contra a vaidade e a ganância, a palavra de Deus nos convida a voltar o coração para as coisas do alto, onde está Cristo, nossa vida e riqueza.
            O que é ilusão e vaidade, e em que realmente vale a pena se empenhar? A ganância, fruto do egoísmo, um dia levará os gananciosos a julgamento. Buscar as coisas do alto é buscar o que está de acordo com o projeto de Jesus.
            Depositamos no altar do Senhor o dom da vida dos padres que presidem para nós as santas Missas e a de todos os vocacionados ao ministério ordenado.
            Os bens materiais seduzem com muita facilidade o coração das pessoas. A verdadeira riqueza, segundo Jesus, é ser generoso com os demais, como o Pai é com todos. Por confiança nas riquezas é falta de bom-senso, falta de sabedoria. Quem põe o coração no dinheiro tem pouca consideração para com a vida humana, mergulha-a no mais absoluto fracasso. De fato, a experiência nos diz: quem se fecha em si mesmo e em seus bens, em seu mundo, perde o melhor de sua vida.
            Quem é materialista e só quer conhecer os prazeres deste mundo, para este o ensinamento de Jesus é indigesto, mas nem por isso deixa de ser verdade. Não levamos nada daqui. As riquezas materiais não têm valor duradouro, nem podem ser o fim ao qual o homem se dedica. Talvez o consumismo de hoje tenha isso de bom: lembra-nos essa precariedade. O produto que compramos hoje amanhã já saiu da moda, e depois de amanhã nem haverá mais peças de reposição para consertá-lo. Nossa nova TV estará fora de moda antes que tivermos completado as prestações... Por outro lado, esse consumismo é grosseira injustiça, pois gastamos em uma geração os recursos das gerações futuras. Se as coisas valem tão pouco, melhor seria não as comprar, e voltar a uma vida mais simples e mais desprendida. Haverá recessão econômica, mas também haveria menos necessidade de dinheiro para ser gasto.
            A caça à riqueza material é um beco sem saída. A razão por que se insiste em produzir sempre mais é que os donos do mundo lucram com a produção, sobretudo das coisas supérfluas que enchem as prateleiras das lojas. Para vender esses supérfluos, criam nas pessoas a necessidade de possuí-las, mediante a publicidade na rua, no jornal e na televisão. Quando então as pessoas não conseguem adquirir todas essas coisas, ficam irrequietas; quando conseguem, ficam enjoadas; e em alguns casos aparece mais uma necessidade: a psicoterapia...
            A sabedoria do lucro é injusta e assassina. Leva as pessoas a desconsiderar os fracos. Um proeminente político deste país disse que quem não pode competir não deve consumir... O sistema do lucro e do desejo sempre mais acirrado, precisa manter as desigualdades, pois parte do pressuposto que todos querem superar a todos. Tal sistema é intrinsecamente pecaminoso, disseram os Papas São Paulo VI e São João Paulo II.
            Ser rico, não para si, mas para Deus... Não amontoar riquezas que na hora do juízo serão as testemunhas da nossa avareza, injustiça e exploração (cf. Tg 5,1-6), mas riquezas que constituam a alegria de Deus!
            Não adianta muito discutir se a produção tem que ser capitalista ou socialista, enquanto não se tem claro que o ser humano não existe para a produção, e sim a produção para o ser humano. E este, se for sábio, tentará precisar dela o menos possível.
            Na terça-feira desta semana, dia 6 de agosto, celebraremos a festa da Transfiguração do Senhor, muito concorrida em nosso País, e conhecida como Senhor Bom Jesus, com inúmeros títulos, especialmente em nossa Arquidiocese de Ribeirão Preto: Bom Jesus do Bonfim, da Lapa, da Alvorada, da Cana Verde e outros. Já neste domingo, omitindo a Memória de São João Maria Vianney, agradeceremos o dom da vocação de nossos bons e esmerados Presbíteros! É o Dia do Padre! É o mês vocacional no Brasil!
Sejamos todos agraciados e abençoados, com esta devoção e a festa que nos permite “uma espiadinha no céu”, juntamente com Pedro, Tiago e João que subiram ao Tabor com Jesus! Com ternura e gratidão, meu abraço amigo,
Pe. Gilberto kasper
(Ler Ecl 1,2; 2,21-23; Sl 89(90); Cl 3,1-5.9-11 e Lc 12,13-21).
Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Agosto de 2019, pp. 24-27 e Roteiros Homiléticos da CNBB do Tempo Comum I (Agosto de 2019), pp. 54-57.

AGOSTO NO BRASIL É O MÊS VOCACIONAL!


Padre Gilberto Kasper é Mestre em Teologia Moral, Licenciado em Filosofia e Pedagogia, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Docente no CEARP – Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Assessor da Pastoral da Comunicação e Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista. Contato: pe.kasper@gmail.com

            Agosto no Brasil é o mês vocacional! No próximo domingo nos uniremos às Vocações Específicas Ordenadas, especialmente os Sacerdotes. São João Maria Vianney, o Cura D’Ars é o Patrono de todos os Padres. É também dia de recordarmos junto às nossas Comunidades, os sinais de discernimento de nossa vocação ministerial. Lembrei-me, entre outras dezenas, de um evento marcante de minha infância, que acenou para minha vocação ao Sacerdócio. 
Aos sete anos de idade, quando cursava o primeiro ano do Ensino Fundamental, nem bem falava o português, já que em casa falávamos o dialeto alemão Hünsrick. A Escola Sagrado Coração de Jesus da Congregação alemã das Irmãs de Santa Catarina de Alexandria me alfabetizou utilizando-se desse dialeto para aprender o português, bem como me preparou naquele mesmo ano de 1964 para minha Primeira Comunhão, há 55 anos, no dia 4 de outubro. Minha primeira professora, coincidentemente minha prima, Irmã Fátima Kasper e a Irmã Neófita foram minhas primeiras catequistas. Sou profundamente agradecido, também, ao Padre Urbano José Hansen que fez de meu coração, pela primeira vez, o sacrário de Jesus Eucarístico. Jamais esqueci aquele dia, um dos primeiros mais lindos de minha vida. Já sentia muita vontade de ser padre. Prestava atenção no Pároco e dizia a mim mesmo, que um dia seria como ele. Maior ainda foi minha alegria, porque depois da Primeira Comunhão, pude também, ser instituído Coroinha. Quanta gratidão!
Reconheço que desde a infância fui um moleque muito arteiro, curioso e questionador. Sempre queria saber o “por que” das coisas. Quis entender como a Irmã Fátima conseguia desenhar em trinta folhas brancas, frutinhas, florezinhas, animais, casas e árvores, todas iguais. Éramos trinta alunos. Imaginei mil maneiras de como ela fazia aquilo. Devia passar a noite desenhando as trinta folhas, a fim de que no dia seguinte nós pudéssemos pintar aquelas figurinhas todas. Assim começávamos a conhecer e distinguir pedagogicamente formas, cores, nomes etc.
Certo dia fiquei escondido na sala de aula, durante o intervalo sem ser percebido. Fui à mesa da Irmã Fátima e abri um estojo de carimbos e almofada. Experimentei todos eles na capa e nas primeiras páginas da Cartilha do Mestre que se encontrava também sobre a mesa da professora. Foi quando entendi porque os desenhos de todas as folhas eram iguais. Senti grande alegria de curiosidade satisfeita.
Na volta do intervalo, os alunos todos em suas carteiras, a Irmã Fátima entrou na sala e quase desmaiou ao ver sua cartilha. Em voz severa e forte perguntou: Quem sujou minha cartilha de mestre? Um silêncio profundo se impôs e ninguém nem imaginava que teria sido eu, a experimentar os carimbos na cartilha da Professora. Ela pegou uma régua de mais de um metro, daquelas de aço que fazem um ruído e causam um ventinho ao ouvido, quando balançada, e foi de carteira em carteira perguntando se havia sido aquela ou aquele aluno. Alguns levaram uma boa “bordoada”. Ainda não existia o Código da Criança e do Adolescente! Eu sentia a dor de cada colega que apanhava por minha culpa, mas não tive a coragem de dizer que havia sido eu. Ao chegar próxima de mim, me fitou e disse: “Tu não podes ter feito isso, porque será padre!” Eu senti um alívio meio estranho, não tanto por não apanhar, mas pela profecia da minha primeira professora, que eu seria padre! Passadas algumas semanas, arrependido pedi desculpas à professora e aos meus colegas.
É na pessoa de minha primeira professora, a Irmã Fátima Kasper, que agradeço e presto minha mais sincera homenagem a todos os meus professores. Lembro-me de todos com profunda gratidão! Sintam-se acariciados todos os Professores. Abençoada a vocação de ensinar e educar!


quarta-feira, 24 de julho de 2019

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS - DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM



Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

Temos todos um Pai comum. Foi Jesus que nos ensinou a chamar Deus de Pai, nosso Pai, o que foi ousado e escandalizou muitos religiosos de então. Aparentava ser verdadeira blasfêmia. Afinal de contas “pai” tem a ver com “parente”, e parente mais próximo. Portanto, a ousadia de Jesus de chamar a Deus de pai soava como se ele dissesse que Deus é nosso “parente” mais próximo e que nós somos seus filhos e filhas: existe um “parentesco” entre Deus e nós. E não é assim? Fomos, de fato, criados “à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,27) e agora somos renascidos em Cristo.
            Gosto de pensar: queremos uma noção mais próxima de como Deus é? Basta olhar para o rosto do nosso semelhante. Somos semelhantes ao nosso Criador. Não somos deuses, mas parecidos com Deus! Muitas vezes agimos uns sobre os outros, como se fôssemos seus deuses, ou seus donos. O namorado diz para sua namorada: “eu te adoro!” e vice-versa. Nós nos adoramos não como deuses, mas como semelhantes e isso nos torna ainda mais lindos. Isso nos torna Anjos uns dos outros! Por conta disso, também penso que não existem pessoas feias. As pessoas foram criadas lindas, porque à imagem e semelhança de Deus. Mas elas se fazem feias, na medida em que se distanciam desse “evento” ou “parentesco”, cuja novidade nos é trazida pela Palavra proclamada neste Décimo-Sétimo Domingo Comum do Ano Litúrgico!
            Jesus resgatou a dignidade que havíamos perdido e voltamos a ser família de Deus, povo de Deus. É nesta experiência de vida nova que nos unimos, de maneira especial, aos jovens, conclamados por nosso amado Arcebispo a rejuvenescer nossa Família Arquidiocesana. Que o Espírito Santo de Deus ilumine a juventude de hoje para que, iluminada pela Palavra de Deus, sinta-se fortalecida para o testemunho da fé em Cristo.
Da mesma forma que Abraão, vamos nos pôr na presença de Deus, que quer nos comunicar sua palavra de salvação. Ele, que deu vida nova no batismo, agora nos dá a conhecer seu rosto e seu amor.
            A oração insistente e sincera do justo em favor do povo chega ao coração de Deus. Jesus nos ensina a pedir com insistência o que é fundamental na vida. Pelo batismo morremos e ressuscitamos com Cristo e nos tornamos novas criaturas. Já a oração eucarística, como ação de graças, súplica e intercessão universal, possui os múltiplos aspectos da oração perfeita de Cristo na cruz.
            Existem cristãos que, julgando-se esclarecidos, afirmam que as orações do nosso povo são muito egoístas, pois são quase sempre orações de pedido. Geralmente somos mais pidões do que agradecidos, também em nosso modo de rezar, até quando o fazemos conscientemente, como diálogo com Deus! Interessante que a Palavra deste Domingo acentua o contrário: é importante pedir, e até insistir no pedido. Abraão com seus incansáveis pedidos quase salvou as cidades de Sodoma e Gomorra. Infelizmente, as cidades eram ruins demais. Jesus, por seu turno, ensina aos discípulos o Pai-nosso, uma oração de pedido. O Pai-nosso pede inicialmente que a vontade de Deus seja feita. Ora, uma vez que rezamos em harmonia com a vontade e o desejo de Deus, podemos pedir bastante. O que não me parece justo é rezarmos para que a vontade seja feita, desde que coincida com a nossa. Precisamos antes, discernir qual é a vontade de Deus para conosco. Gostei muito, quando na sua homilia de posse, nosso Arcebispo Metropolitano, Dom Moacir Silva, pediu-nos que rezássemos por ele. “Rezem por mim. Rezem para que eu não atrapalhe a graça de Deus em meu ministério”. Quanta coragem e ousadia a de nosso amado Pastor! Mostrou-se um Homem de Deus, que quer sempre discernir a vontade e a graça divinas de Deus em sua vida.
            Será a oração em forma de pedido uma forma de oração mais egoísta que a meditação, a louvação, o agradecimento, a adoração? Parece que não! Na verdade, agradecer é a outra face do pedir. Quem agradece, gostou. Por que não pedir então? É reconhecer a bondade do doador! Como o frei que, depois de laudo almoço na casa de uma benfeitora, testemunhou sua gratidão com estas palavras: “Senhora, não sei como agradecer... será que posso repetir aquela gostosa sobremesa?”.
            De acordo com o espírito do Pai-nosso, devemos pedir antes de tudo a realização daquilo que Deus deseja: sua vontade, seu Reino. Ora, uma vez assentada esta base, pode-se pedir – com toda a simplicidade – o pão de cada dia, saúde, vida e todos os demais dons que Deus nos prepara. Inclusive, o perdão de nossas faltas. Só não se deve pedir a Deus o que Deus não pode desejar: a satisfação de nosso egoísmo. E sempre se deve lembrar que Deus sabe melhor do que nós o que nos convém. Podemos insistir naquilo que achamos sinceramente nosso bem... mas Deus sabe melhor.
            É importante pedir, pois pedir também compromete! Depois de ter pedido, a gente já não pode dizer: “Não pedi!”. Comprometer-nos com Deus e com aquilo que pedimos. Não é como no supermercado, onde você entra, olha e sai sem comprar. Assim as preces dos fiéis, na celebração da comunidade, devem ter sentido de compromisso: devemos querer mesmo que elas se realizem, e nos oferecemos a Deus para colaborar na realização daquilo que pedimos. Pedir é comprometer-se. Imaginemos Deus ouvindo nossas preces, como esta: “Perdoai-nos assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...” Se não perdoar o meu irmão, como peço a Deus que me perdoe? Se pedirmos a Deus saúde, não é para gozar egoisticamente a vida, mas para servir melhor. “Quem não vive para servir, não serve para viver!”. Se pedimos paz, não é para sermos deixados em paz, mas para nos dedicarmos à comunhão fraterna. Se pedimos por nossos irmãos e irmãs mais pobres, é porque queremos ajudá-los efetivamente. Importa saber como pedimos (cf. Tg 4,3).
            Saibamos rezar com mais consciência e fé madura, a oração que o Senhor nos ensinou, ao pedido de seus discípulos: O Pai-nosso! São sete pedidos. Será que nós, ao rezamos esta belíssima oração, temos plena consciência do que nela estamos pedindo? E se Deus realmente ouvisse nossos pedidos, como seria nossa vida, nossas relações com nossos semelhantes, aqueles que nos permitem “uma noção do rosto de Deus”?
            Sejam todos sempre abençoados. Com ternura e gratidão, o abraço amigo e fiel,

Pe. Gilberto Kasper
(Ler Gn 18,20-32; Sl 137(138); Cl 2,12-14 e Lc 11,1-13).
Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Julho de 2019, pp. 91-94 e Roteiros Homiléticos da CNBB do Tempo Comum I (Julho de 2019), pp. 48-53.