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terça-feira, 9 de outubro de 2012

AMAR OS ENFERMOS COM AMOR DE MÃE


            Quando referimos, conforme o Gênesis, que o ser humano tem um sopro divino, numa estrutura de barro, queremos significar que ele é dotado de uma mente humana. Os filósofos, comparando-o com os animais, definiram o ser humano como animal racional. Com Descartes, porém, restringiram ainda mais o racional ao processo cognitivo humano. Daí o racionalismo, que empobreceu o valor da intelectualidade, na busca de sua fonte em Deus.

            A mente humana compreende duas faculdades exímias: o intelecto e a vontade. Convém, desde logo, lembrar que o intelecto não se restringe à razão, ou seja, não procede apenas por argumentos ou provas lógicas ou empíricas, mas tem também uma capacidade de intuir a verdade. A mente humana nos proporciona, pois, a capacidade de conhecer e amar. Ou, olhando por parte do objeto, coloca-nos em contato com a verdade e com a bondade por parte do objeto, coloca-se em contato com a verdade e com a bondade dos seres, respectivamente.

            Nossa época pós-moderna nos adverte contra o perigo de cairmos no objetivismo. Nosso relacionamento com o objeto envolve também sentimentos. E logo discernimos entre os objetos de nível físico, vegetativo, sensitivo e racional. Nosso relacionamento, ou seja, nosso conhecimento com os minerais, as plantas, os animais não pode ser o mesmo que temos com os homens e com Deus. No caso dos homens e de Deus, nosso relacionamento, que envolve conhecimento, vontade e sentimentos, é intersubjetivo. E essa característica envolve todo o nosso relacionamento com o universo, na medida em que o acolhemos de Deus e ele nos revela as suas maravilhas, tornando-se habitação e ambiente de vida para nós e nossos semelhantes. É o que nos ensina Saint Exupéry, no Pequeno Príncipe: a raposa, por não comer pão, não teria nenhum relacionamento com o trigal. Mas se for cativada pelo Pequeno Príncipe, lembrará as ondulações de seus cabelos e adquirirá um profundo e novo significado.

            Viver humanamente é realizar-se. É tornar-se pessoa. Isso se faz pelo relacionamento, que tem, na intersubjetividade, sua matriz. Sua atitude básica será a acolhida de cada pessoa, para que ela se sinta amada e realizada. Não é, pois, possível curar uma pessoa – de qualquer doença – sem levá-la à vivência de sua subjetividade, que resulta da intersubjetividade das pessoas que cuidam dela. Curar, no fundo, é demonstrar carinho, ir em socorro, tirar do isolamento, mostrando que ela não está a sós no combate à doença. Não conseguindo reagir com as próprias forças, há quem lhe venha em socorro. E isso deve ser feito humanamente, o que equivale a dizer, intersubjetivamente. A doença humana não se reduz a um fenômeno biológico. Envolve e afeta profundamente sua mente (cf. Fonte: GRINGS, Dadeus. Cartilha da Saúde – Um Apelo da Bioética. Presscom, Porto Alegre (RS), 2008 pp. 29-30).

            Especialmente a Igreja, através de seus Ministros Ordenados e da Pastoral da Saúde, deve priorizar nas Comunidades de Fé, Oração e Amor, os Enfermos, que fazem de seus limites físicos e leitos de dor, o verdadeiro Altar do Sacrifício do Senhor. Por isso, saibamos sempre amar os enfermos com amor de mãe!

Pe. Gilberto Kasper

Mestre em Teologia Moral, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

HOMILIA PARA O 27º DOMINGO DO TEMPO COMUM DE 2012

OUTUBRO – MÊS MISSIONÁRIO

“Brasil missionário, partilha tua fé”!

Meus queridos Amigos e irmãos na Fé!

 

         “Estamos no início do mês de outubro, mês missionário, do Rosário e também um mês político, pois, nas eleições para prefeito (a) e vereadores (as), escolheremos aqueles (as) que governarão nossas cidades, nos próximos quatro anos. Quantas vezes já ouvimos falar que a Igreja não deve se meter na política e sim cuidar da religião, das coisas de Deus, o que nos parece certo, se entendermos por política as diferentes concepções e maneiras de se governar, próprias dos partidos políticos (em demasia, aliás). No entanto, se política for a arte de governar uma cidade, nação ou estado, então, como cidadãos, temos não só o direito, mas também o dever de participar. Por isso, votar é, antes de tudo, a participação de todo cidadão, seja ele cristão ou não, visando à construção de uma sociedade menos injusta e mais igualitária. Sem dúvida, a luz do evangelho é fundamental nesta luta de participação democrática.

As leituras do 27º Domingo do Tempo Comum apresentam uma temática sempre atual: a união matrimonial. Fruto do amor de um homem e uma mulher, o matrimônio aparece como projeto de Deus para o ser humano na busca da realização e da felicidade. Esse amor fiel, construído e fundamentado na doação e na entrega, será para o mundo um reflexo do amor de Deus para com o ser humano. Os textos bíblicos situam o debate em seu verdadeiro horizonte, trazendo a intenção originária do Criador. Essa forma enfatiza a fidelidade no matrimônio, proibindo explicitamente o divórcio. O adultério é a ruptura de uma relação que deve ser concebida não como um simples contrato legal, mas como uma disposição de vida, uma aliança estável, à semelhança daquela que o mesmo Deus fez com seu povo, alimentada pelo amor e não pela lei.

            ‘O ser humano foi criado para a comunhão com os outros. A família, comunidade primeira da sociedade, é querida e abençoada por Deus. Solidário conosco e nosso irmão, Jesus nos instrui sobre o profundo sentido do matrimônio. Formamos família que vive a prática do amor fraterno e busca tornar novas as relações entre homens e mulheres, superando preconceitos e atitudes de dominação.

            Os seres humanos foram criados para viver em harmonia uns com os outros. Ao se encarnar, Jesus tornou-se solidário com a humanidade, participando da mesma sorte. O projeto inicial de Deus é homem e mulher vivendo o amor e o benquerer’ (Cf. Liturgia Diária de Outubro de 2012 da Paulus, pp. 30-33).

            A liturgia proposta para este domingo é uma reafirmação da vocação de todo ser humano: o amor. Sem ele a vida não deixa de ser uma experiência de solidão que condena qualquer um à triste experiência da morte. Como diz São Paulo: ‘sem o amor, nada sou’.

            Atualmente, a constante mudança dos valores em nossa sociedade, apresentada principalmente pelos meios de comunicação social, dificulta a fidelidade dos esposos. Em muitos casos, uma simples dificuldade já serve de motivo para a separação. Existem uniões que já começam praticamente pensadas para durarem determinado tempo: sem o sacramento, com separação de bens...

            A separação será sempre o fracasso do amor. Só o amor eterno, manifestado em um compromisso indissolúvel, está de acordo com o que o Criador nos ensinou, respeitando desta forma seu verdadeiro projeto” (Cf. Roteiros Homiléticos da CNBB, nº 23, pp. 43-50).

            É interessante observar como o Evangelho de Marcos, em sua primeira parte trata da fidelidade, do verdadeiro matrimônio e das consequências do adultério. Deus faz aliança conosco. O matrimônio também é uma aliança, que naturalmente implica em fidelidade! Quando rompemos a fidelidade, cometemos adultério. Sou até mais ousado, em pensar, que facilmente nos “prostituímos”, traindo a aliança de Deus conosco! Isso acontece quando mentimos, fingimos e maliciamos pessoas, comportamentos, atitudes, eventos... Depois que Jesus, em casa, orienta seus discípulos sobre o tema da necessária fidelidade em toda relação humana, acolhe as crianças: “Deixai vir a mim as crianças. Não as proibais, porque o reino de Deus é dos que são como elas”.

            Dois pensamentos merecem nossa atenção. As características da criança que perdemos, tornando-nos adultos: sinceridade, espontaneidade e pureza. Quando crescemos tornamo-nos mentirosos, fingidos e maliciosos. Eis o convite a recuperarmos as características das crianças. A outra questão a ser levada em conta, é que de cada separação, divórcio ou infidelidade, quem mais sofre as consequências do desamor, são as crianças. Os filhos de um casal que, muitas vezes, não passam de um cruel acidente, susto ou simplesmente um detalhe! Pode haver maior irresponsabilidade, egoísmo, desumanidade e insensibilidade? Depois nos perguntamos por que o mundo está tão enfermo, violento, deprimido e desencantado! Ou levamos a sério o amor com sabor divino que nos é permitido viver, ou não ousemos brincar de criaturas humanas, porque nem os animais são tão selvagens como nossa arrogância e prepotência, de queremos ser deuses sobre os outros!

            Inicia-se neste domingo até o dia 28 de outubro em Roma, o Sínodo dos Bispos sobre “A Nova Evangelização para a transmissão da Fé Cristã”! E do próximo dia 11 de Outubro até 24 de Novembro de 2013, o Papa Bento XVI proclamou, para toda a Igreja, um “Ano da Fé”. Começará no dia 11 de outubro de 2012, no cinquentenário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II e aniversário de vinte e cinco anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica.

            Em nossa Arquidiocese de Ribeirão Preto, convidados por nosso Administrador Arquidiocesano, Côn. Nasser Kehdy Netto, faremos o lançamento do ANO DA FÉ na Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, dia 12 de Outubro. Em nossa Igreja Santo Antoninho, celebraremos este marco em comunhão e no exercício da unidade com toda a Igreja, durante a Celebração Eucarística das 19 horas da próxima sexta-feira, renovando nossa fé, no momento em que mergulharemos no “útero da Igreja”, a Bacia Batismal, nossa querida irmãzinha Maria Fernanda! Celebraremos, também pedindo a proteção de nossa Mãe, Rainha e Padroeira do Brasil para todas nossas crianças, especialmente as que têm pais separados, ou que por eles foram abandonadas!

            Neste domingo, levaremos os envelopes para a Coleta das Missões. Seja nossa partilha consciente e generosa. Não deixemos para colocar nossa oferta no Dia Mundial das Missões, 21 de Outubro próximo. Naquele domingo devolveremos nossos envelopes, contendo o resultado do esforço que fizermos ao longo desses dias, partilhando de nossa pobreza, com os Missionários e Missionárias do Mundo todo, que com inúmeras dificuldades dependem de nossa oferta generosa, para poder anunciar o Evangelho de Jesus Cristo. Seja esta a nossa Coleta mais consciente, porque realizada no Ano da Fé!

            Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão o abraço amigo,

Padre Gilberto Kasper

(Ler Gn 2,18-24; Sl 127(128); Hb 2,9-11 e Mc 10,2-16)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A SAGRADA ESCRITURA, CARTA DE AMOR DE DEUS PARA A HUMANIDADE


Pe. Gilberto Kasper
 

Mestre em Teologia Moral, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista.
 

                Quando o namorado envia uma carta de amor à namorada, este alegra o coração de quem ama. Ao escrever, imagina como se encontra, o que anda fazendo a destinatária de suas palavras de amor. Ao receber a carta, a namorada imagina o momento em que a mesma foi escrita, imagina seu namorado e sente profunda saudade e vontade de estar junto dele. Para amenizar tais sentimentos, lê e relê inúmeras vezes a carta recebida e assim vai crescendo em ambos o lindo amor que um sente pelo outro. A Sagrada Escritura é a Carta de Amor de Deus para a Humanidade que a ama loucamente. É também a descrição da Aliança - Antiga e Nova - que deseja selar com a Humanidade. Selar Aliança significa fidelidade, compromisso, correspondência de amor. Amor que se oferece, Amor que é acolhido! O namorado é Deus revelado na pessoa de Jesus Cristo e a namorada é a Igreja, que somos todos nós!

               "A moral cristã tem seu fundamento, além da lei natural, na Lei de Cristo: 'Dou-vos um mandamento novo: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos se tiverdes amor uns pelos outros' (Jo 13,34-35). Com essa afirmação, Jesus traçou o horizonte insubstituível do caminho do discípulo. Esta exigência moral nasce do princípio fundamental da fé cristã 'porque Deus é amor. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou-nos o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados' (1Jo 4,8.10). Não há outro processo educativo para a conquista de ser nova criatura. Esta é a graça fundamental do Batismo e a integral exigência de sua vivência autêntica, fecundando a alegria do testemunho que convence, congrega e produz frutos" (Subsídios Doutrinais da CNBB 5, nº 96).

               Encerremos o mês dedicado à Bíblia com o firme propósito de correr à caixinha do correio e apanhar a carta de amor que Deus nos enviou. Abrindo-a, busquemos lê-la com o coração orante, ou seja, dialogando com Deus que se declara amante de cada um que O acolhe; ler o que escreveu e seguir o que orienta em suas linhas escritas com seus sábios lábios de amor, de perdão, de misericórdia e de bondade! Seguramente nesta carta de amor, Deus marca um encontro conosco: seja na Comunidade de Fé, Oração e Amor, seja no profundo silêncio e nosso coração, seja no rosto sapeca de uma criança ou na face enrugada de um ancião. Importante é saber ler, compreender, acolher e viver o que contem a Carta de Amor de Deus para a Humanidade!

            Neste domingo, dia 30 de Setembro, celebramos a Memória de São Jerônimo, o Patrono dos Estudiosos da Bíblia. Teremos o Estudo Bíblico no Centro do Professorado Católico da Arquidiocese de Ribeirão Preto, na Rua Barão do Amazonas, 484, entre 15 e 17 horas, na sexta-feira, dia 28. O Estudo será assessorado por nós e é aberto para quem desejar conhecer melhor a Sagrada Escritura, amando e vindo-a melhor. Sintam-se todos convidados!