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sexta-feira, 19 de abril de 2013

HOMILIA PARA O QUARTO DOMINGO DO TEMPO PASCAL


DOMINGO DO BOM PASTOR

DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

“Eu sou o bom pastor, diz o Senhor;

eu conheço as minhas ovelhas e elas

me conhecem a mim” (Jo 10,14).

 

            “O quarto Domingo da Páscoa é tradicionalmente chamado de Domingo do ‘BOM PASTOR’. O título tem razão de ser, pois as leituras e as orientações nos levam a contemplar Jesus como o Bom Pastor, aquele que dá a sua vida pelas ovelhas. Na Páscoa, esse mistério é ainda mais acentuado quando se considera a morte e ressurreição do Senhor como a suprema doação da vida do Filho de Deus para a salvação do mundo.

            Mas, a oferta que Jesus faz de sua vida se prolonga na vida de muitos homens e mulheres que se entregam pela vida dos outros, doando-se abnegada e gratuitamente por causas das quais poderiam se eximir. Entretanto por decisão livre, por solidariedade, por reconhecimento de tudo o que são e possuem, movidos pelos impulsos do Espírito, religiosos ou não, fazem da sua existência um serviço de amor capaz de gerar vida nova e, em muitos casos, salvação.

            A Eucaristia é lugar privilegiado de reconhecer esses sinais do Ressuscitado espalhados na sociedade e no mundo. Ela nos abre os olhos e os ouvidos para contemplar a misteriosa ação de Deus na história, projetando a luz da fé sobre as coisas bonitas que a televisão, os jornais, e a cultura atual não querem mostrar. O cristão, que vive da vida nova do Ressuscitado, rompe com os esquemas que aprisionam a vida que Deus ofereceu para todos em seu Filho. Com a força e a coragem do Pastor, lutam pela universalidade da salvação que não ficou aprisionada nem à cruz e nem ao sepulcro.

            ‘Neste domingo somos convidados por Jesus, Bom Pastor, a fazer parte do seu rebanho e aprender dele o jeito de ser Igreja. Ele sustenta nossa vida, e suas palavras nos dão segurança: nada poderá arrebatar-nos de sua mão.

            A palavra de Deus não conhece fronteiras. Ela chega a todos os povos e nos reúne em torno do Ressuscitado, doador da vida eterna a quantos escutam a sua voz e o seguem.

            A palavra de Deus alcança a todos os que se deixam orientar por ela. Jesus, o verdadeiro pastor, doou sua vida para que todos tenham vida plena. Jesus é o Cordeiro imolado e o pastor que conduz todos às fontes da água viva’ (cf. Liturgia Diária de Abril de 2013 da Paulus, pp. 66-69).

            Dois aspectos enriquecem a vida cristã neste domingo: a comunhão e a doação de si. Jesus entra em comunhão com o seu rebanho e se doa voluntariamente pela salvação dos seus. Essa comunhão e autodoação têm sua fonte no amor entre o Pai e o Filho. Comunhão e autodoação é o modo de ser de Deus. Por meio de Jesus passa a ser o modo de ser dos cristãos. Por isso, a vida cristã não se afirma na indiferença, na distância ou na separação, mas no amor. Aquilo que para os outros é sem importância, porque não toca diretamente nossa vida, passa a ser importante, porque bebemos de uma fonte de amor. Assuntos e realidades como a fome, a violência, a dependência química, a injustiça que arranca os direitos essenciais à vida, as doenças, a corrupção, que criminosamente se propagam entre nós, são do nosso interesse e exigem ações da nossa parte em vista da vida e da salvação de todos. A experiência da ressurreição não pode ser entendida como graça particular, porém como missão, norma de uma vida aberta e devotada aos outros.

            Nem é necessário bancar o super herói atento aos atos criminosos ou perigos sofridos por outrem. A vida exige que trabalhemos, cumpramos nossas obrigações, façamos nossos deveres, como cuidar da casa, da família, da própria saúde, até mesmo do lazer e do descanso. Contudo, é preciso encontrar lugar para o amor abnegado, gratuito e desinteressado. Encontrar tempo para sair de si e encontrar o outro que necessita. Basta abraçar uma causa, dedicar-se a uma meta em prol de uma situação, agremiar-se a um grupo, dar sua contribuição para um mundo melhor. Quem sabe, assim, o amor de Deus se torna mais evidente a um mundo tão fechado e ensimesmado?” (cf. Roteiros Homiléticos da Páscoa de 2013 da CNBB, pp. 48-53).

Vivemos uma cultura da coisificação da pessoa. Se lhe atribuímos códigos e senhas. Não existe, porém, som mais deleitoso, do que ouvir alguém nos chamar pelo nome. Pessoalmente tenho grande dificuldade de guardar o nome das pessoas, embora não esqueça suas fisionomias. É algo que me entristece, porque é bom demais ser reconhecido pelo nome ao invés de identificado por códigos, apelidos pejorativos ou senhas. O que não suporto é o fingimento que muitas vezes disfarça nossa incapacidade de guardar na memória nomes de pessoas com quem nos relacionamos. Irrita-me profundamente quando alguém, seja ao telefone, seja pessoalmente, me peça que adivinhe quem é! Peço que se identifique de uma vez. Mas a questão de conhecer o rebanho, as ovelhas pelo nome e essas reconhecerem nossa voz é bem mais profundo e transcendente do que simplesmente lembrar o nome deste ou daquele colaborador em nossas Comunidades Eclesiais, Sociais, Políticas ou Profissionais.

 

 

‘Uma verdadeira conversão pastoral deve estimular-nos e inspirar-nos

atitudes e iniciativas de autoavaliação e coragem de mudar várias

estruturas pastorais em todos os níveis, serviços, organismos,

movimentos e associações’ (CNBB. DGAE. DOC. 94. N. 26).

 

            A sociedade atual, sobretudo os jovens e adolescentes, se move pela busca de figuras referenciais para sua vida. Os padrões editados pela mídia projetam modelos que condicionam as pessoas a assumi-los, por vezes com consequências nefastas. Cantores e artistas famosos, atletas bem sucedidos etc., alimentam o sonho de autorrealização, de fama e de ser um herói para milhões de indivíduos. Estes ‘ídolos’ mexem com o universo imaginário e simbólico das pessoas, sobretudo dos mais jovens.

            Jesus é o Bom Pastor, não simplesmente em oposição à figura dos pastores mercenários, mas porque valoriza e conhece suas ovelhas e é reconhecido por elas. Ele dá a vida por elas por uma opção de amor. Portanto, Jesus se apresenta à comunidade como Bom Pastor, movido pela lógica do amor e não por interesses e favores pessoais, a exemplo dos mercenários. Quem não ama sua comunidade (seu povo) até à doação de sua vida, não pode ser considerado pastor exemplar.

            O Dia Mundial de Oração pelas Vocações nos convida a rezarmos ao Senhor que envie pastores configurados com Cristo, o Bom Pastor! A começar dos Ministros Ordenados aos Agentes de nossas Pastorais, somos também convidados à conversão, à coerência e ao bom senso em nossas atividades, que devem estar sempre pautadas sobre o Projeto Evangelizador e Missionário de Jesus Cristo, o Bom Pastor! Quem não gasta sua vida pela Comunidade (o rebanho) corre o risco de compreender sua vocação como ‘meio de vida’, o que se torna geralmente um desastre. Por isso é fundamental conhecer Jesus Cristo ressuscitado e identificá-lo como o Bom Pastor a ser seguido.            Conhecer Jesus e tê-lo como modelo de vida implica conhecer seu amor e aderir ao estilo de seu agir. A mútua relação entre Jesus e os seus gera e nutre a relação de intimidade, de confiança, de diálogo, de pertença, de segurança. Não é em vão que a palavra pastoral evoca: zelo, cuidado, carinho, misericórdia, compaixão, amor, dedicação, ternura, atenção às pessoas e às suas necessidades.

ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES

Jesus, Bom Pastor, que chamastes os apóstolos a vos seguir,

Continuai chamando pessoas generosas e de mente aberta

Para que deem continuidade à missão por vós iniciada.

A messe é grande, poucos os operários:

Necessitamos, Senhor, de bons e santos pastores.

Isto vos pedimos, a vós que viveis e reinais para sempre.

Amém.

Nossas Comunidades, com razão, são cada vez mais exigentes. Sejamos Bons Pastores para elas. Sejam elas, Queridas Ovelhas para nós.

 

            Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura, o abraço amigo,

Padre Gilberto Kasper
(Ler At 13,14.43-52; Sl 99(100); Ap 7,9.14-17 e Jo 10,27-30).

sexta-feira, 12 de abril de 2013

HOMILIA PARA O TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO PASCAL


Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé
“O Terceiro Domingo do Tempo Pascal orienta-se à experiência da companhia do Ressuscitado que se manifesta em meio aos discípulos. O Tempo da Páscoa integra o Grande Dia Pascal, o Dia que o Senhor fez para nós. Neste período, a Igreja se deixa encontrar por seu Senhor e busca contemplá-lo e reconhecê-lo mediante os mesmos gestos que ele já realizava enquanto estava na sua companhia. A liturgia celebrada nos dá acesso a estes gestos de maneira que permaneçamos unidos a Jesus corporalmente, assumindo na história humana o posto de sacramento daquele que é Morto-Ressuscitado.

            ‘Somos convidados a reunir-nos em torno do Ressuscitado, o Cordeiro imolado que vive para sempre. A ele queremos dar graças e glorificar, pois nos alimenta com a palavra proclamada e com o pão partilhado. Desafiados pela pergunta que nos faz – vocês me amam? -, abramos o coração, para a resposta de fé e de amor.

            A Palavra de Deus encoraja os seguidores de Jesus diante dos obstáculos à missão. Ela também nos convida a reconhecer, louvar e partilhar o mesmo Cristo, que se oferece em comunhão, e nos desafia a amá-lo.

            É mais importante obedecer a Deus que aos homens. Jesus ressuscitado aparece à comunidade envolvida nos compromissos cotidianos. Cabe à comunidade cristã adorar unicamente a Deus, rejeitando toda idolatria’ (cf. Liturgia Diária de Abril de 2013 da Paulus, pp. 48-51).

            No texto-base em preparação ao 10º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, José Oscar Beozzo evocava a vida cristã como memória perigosa de Jesus. A Liturgia da Palavra deixa entrever esta perspectiva ao colocar-nos diante do testemunho dos apóstolos e, em especial, daquela incumbência dada a Pedro – que envolve a Igreja toda – de cuidar do rebanho que se estende para além dela mesma e se identifica com a humanidade. Por amor, os pastores da Igreja, mas também todos os seus membros, são encarregados pelo Senhor no cuidado para com o mundo. Neste trabalho que os cristãos realizam se cumpre o mandato do amor e se dá a oportunidade para que a criação inteira proclame seu ‘amém’ à vitória do Cordeiro.

            Na Palavra e na obra de homens e mulheres de nosso tempo – hoje lembrando-nos especialmente daqueles que assumem o pastoreio em nome de Cristo – ressoa a boa nova. Como não recordar de Dom Pedro Casaldáliga e a recente perseguição sofrida por conta de seu compromisso com os povos indígenas? Como não fazer memória de tantos bispos, padres, religiosas, leigos e leigas que, espalhados pelas diversas Igrejas Particulares, denunciaram nas recentes eleições municipais, os desmandos e corrupção do poder político? Nestas ações corriqueiras é que se manifesta a Páscoa de Cristo, vencendo a morte e fazendo brilhar a vida para sempre.

            Santo Atanásio afirmava: ‘Jesus ressuscitado converte a vida do ser humano em uma festa contínua’. E acrescenta: ‘a Páscoa rejuvenesce a vida dos fiéis’. De fato, somos ‘novas criaturas’ que entoam o ‘canto novo’ que consiste na ‘glória de seu nome’. A celebração litúrgica ao realizar a vida de Cristo, no coração da assembleia, lhe permite irradiar a glória do Senhor que não significa outra coisa que torná-lo manifesto ao mundo por meio da fidelidade ao seu mandato e à sua herança: o amor. Amar os irmãos, arriscar-se pela fraternidade universal, que toma forma nos pequenos gestos de carinho e solidariedade locais, revela o Nome de Deus em nós. Este nome é ‘Cristo’: Cristo em nós, fazendo-nos partícipes de sua ressurreição por causa de sua compaixão para com o gênero humano” ( cf. Roteiros Homiléticos da Páscoa de 2013 da CNBB, pp. 42-47).

            Há alguns dias alguém me perguntou, se a Celebração Litúrgica na Igreja é lugar de avaliar o Governo Municipal? Na medida em que a Palavra de Deus nos interpela a falarmos sobre nossa missão de servidores, e não senhores ou donos dos munícipes de uma Metrópole como é a cidade de Ribeirão Preto, não só podemos, como é nosso dever colaborar na formação de consciência crítica, ética e de cidadania de nossas assembleias celebrativas. Foi exatamente esta a missão que o Ressuscitado confiou aos seus discípulos e hoje a cada um que se sente cristão comprometido com o Reino de Deus, que é um Reino de Justiça, de Conversão, de Misericórdia e de Amor ao próximo. Enquanto houver um só cidadão de nossa cidade carente dos cuidados evangélicos que o ser cristão exige, teremos a obrigação de levar nossas celebrações espirituais à vida hodierna, da porta da Igreja para fora. O Governo que é transparente, que não maquia recursos econômicos e projetos de qualquer natureza, não teme que alguém faça uma lúcida, consciente e crítica avaliação de sua atuação.

            Triste mesmo foi constatar que no dia 2 de abril de 2013, nosso Legislativo decepcionou mais uma vez seus eleitores. Nove dos vinte e um vereadores foram fiéis e coerentes com o Projeto de Transparência vetado pela Prefeita Municipal, que pedia maior participação da Câmara de Vereadores nas licitações de volumosos valores. A Prefeita entende que deve ter “Carta Branca” para contratar quem quer que seja sem a apreciação e aprovação dos Vereadores. O Projeto foi aprovado por unanimidade pelos 21 Vereadores. Não entro em questões de quem tem razão. Certamente a Prefeita assegurou seu veto juridicamente, lembrando que o jurídico mesmo sendo politicamente correto, nem sempre é ético e contempla o bem da comunidade. Ela exerceu seu privilégio de vetar a maior participação do Povo representado pelos Vereadores eleitos pelo mesmo Povo. O que nos entristece profundamente e nos decepciona novamente, é que dos 21 Vereadores, apenas 9 mantiveram coerência, votando contra o veto da Prefeita. 10 não votaram contra, nem a favor: se abstiveram de votar, o que demonstra ainda mais claramente, de que não merecem nossa confiança. Um precisou ausentar-se durante a votação para socorrer a esposa e outro faltou à sessão. O que o cristão comprometido com o Ressuscitado e a missão que nos confia, deve pensar e fazer? Marcar bem o nome dos Vereadores que voltaram à trás de seu voto inicial; cobrar pessoalmente deles uma postura mais ousada e corajosa e ter o zelo e cuidado de nunca mais elegê-los para SERVIÇO NENHUM!

            Durante a Campanha Eleitoral o discurso é um: promissor! Na diplomação dos Eleitos, o discurso já “amarela” um pouco e depois da posse, o discurso já não é mais nem um e nem outro. A verdade não se deixa burlar, comprar, corromper e nem está à venda por conta de promessas não cumpridas. Só participa da ressurreição do Senhor quem for coerente sempre entre o que pensa, fala e faz! Portanto, é sim missão e serviço à fraternidade e à promoção da Dignidade Humana, da Igreja de Jesus Cristo Ressuscitado, começando por seus líderes e passando por cada um que se atribua a denominação de Cristão. O resto está fadado a ser diabólico, como diabólicas são as deslavadas Mentiras que ocupam nosso vocabulário politiqueiro, todos os dias! Sejamos honestos e transparentes diante de nós mesmos, de Deus e dos outros. Assim não precisaremos temer a ninguém e a nada que tente nos  desestruturar. O que é Deus não cai. A mentira nos trai!

            Desejando-lhes muitas bênçãos e que todos saibamos usufruir dos aromas que exalam do sepulcro vazio, devolvendo-nos a paz que o pecado nos rouba, com ternura e gratidão, meu abraço sempre amigo,

Padre Gilberto Kasper

(Ler At 5,27-32.40-41; Sl 29(30); Ap 5,11-14 e Jo 21,1-19).
 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

HOMILIA PARA O SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA


Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
 
            O Segundo Domingo do Tempo Pascal nos introduz no Tempo em que  celebramos a ressurreição do Senhor, como único e grande dia, que se estende desde o Domingo da Páscoa ao domingo de Pentecostes. “Os cinquenta dias entre o domingo da Ressurreição e o domingo de Pentecostes sejam celebrados com alegria e exultação, como se fossem um só dia de festa, ou melhor, como um grande domingo” (Normas Universais ao Ano Litúrgico e Calendário Romano Geral, n. 22).

            Celebramos o domingo da Divina Misericórdia, instituído por João Paulo II,  Beato, e damos graças ao Senhor por seu eterno amor por nós, disposto a nos perdoar, sempre que nosso coração arrependido volta-se para ele.  Escolhi como lema de minha Ordenação Presbiteral, a quinta Bem-aventurança do Sermão da Montanha de Jesus: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7), justamente porque não obstante meus incontáveis limites, o Senhor me quis Sacerdote, tamanha Sua Misericórdia por mim! Como Tomé, exclamamos maravilhados: “Meu Senhor e meu Deus”.  Desde criança aprendi que a profissão da fé de Tomé seria a ideal, cada vez que fizesse a genuflexão diante do Cristo Sacramentado, seja na Hóstia Consagrada exposta, seja escondida no Sacrário. Por isso, quando coloco o joelho direito no chão, em sinal de adoração ao Senhor presente no mistério de nossa Fé, a Eucaristia, digo com a poesia de meu coração: “Meu Senhor e meu Deus”. Também quando ergo Jesus transubstanciado de um pedacinho de pão em Seu Corpo e de um pouquinho de vinho no Seu precioso Sangue, meu coração remete aos meus lábios a mesma expressão: “Meu Senhor e meu Deus!”.

O primeiro encontro de Jesus ressuscitado com seus discípulos é marcado pela saudação feita por Ele: ‘A paz esteja convosco’. Por duas vezes o Ressuscitado deseja a paz a seus amigos. Em seguida, os envia em missão, soprando sobre eles o Espírito. Buscar e construir a paz é missão dos seguidores do Ressuscitado, pois o Reino de Deus, anunciado e realizado por Jesus e continuado pelas comunidades animadas pelo Espírito, manifesta-se na paz. Reino de Justiça, Paz e Alegria como frutos do Espírito Santo. O Apóstolo, amigo de Jesus, ressalta que a paz, para ser autêntica, deve ser trazida pelo Cristo. Uma paz diferente da paz construída pelos tratados políticos. Paz (é shalom) significa integridade da pessoa diante de Deus e dos irmãos. Significa também uma vida plena, feliz e abundante. Paz é sinal da presença de Deus, porque o nosso Deus é um ‘Deus da Paz’ (Rm 15,33). Paz significa muito mais do que ausência de guerra. Significa construir uma convivência humana harmoniosa, em que as pessoas possam ser elas mesmas, tendo o necessário para viver, convivendo felizes.

            A comunidade, que abre suas portas, acolhe o Senhor e o segue é enviada pelo Espírito do Ressuscitado a testemunhar o amor do Pai, isto é, a prolongar, no curso dos tempos, a oferta da vida que, em Jesus, Deus fez à humanidade. O reino da vida que Cristo veio trazer é incompatível com as situações desumanas em que vivem mergulhados milhões de seres humanos. ‘Como discípulos e missionários, somos chamados a intensificar nossa resposta de fé e a anunciar que Cristo redimiu todos os pecados e males da humanidade’ (Documento de Aparecida, n. 134).

            O cristão isolado (ausente da comunidade) é vítima do egoísmo e exige provas para crer. É na vida da comunidade que encontramos as provas de Jesus que está vivo. Ser cristão, hoje, requer e significa pertencer a uma comunidade concreta, na qual se pode viver uma experiência permanente de discipulado e de comunhão. Por esta razão, a marca registrada deste Segundo Domingo da Páscoa é a , vivida em comunidade, justamente no ANO DA FÉ. É em comunidade que se realiza o encontro com o Ressuscitado e a experiência de uma vida nova (cf. Roteiros Homiléticos  n. 21 da CNBB).

            “No tempo da Páscoa, a comunidade cristã tem a oportunidade de aprofundar o evento da salvação, cuja memória desponta de modo pungente na liturgia desse tempo.

            Convém chamar a atenção para o fato de que a vida nova não está isenta de dificuldades. O cristão não é tirado do mundo pelos sacramentos que celebra, mas situado nele de uma maneira especial: como comunidade que aponta e evoca uma realidade nova, mostrando aos demais que a salvação alcançada em Cristo se realiza e se prolonga naqueles que aderem a Ele (). Pela comunhão com os irmãos, pela promoção da justiça e da libertação, pelo cultivo de utopias e esperanças de vida e de inclusão, a comunidade dos fiéis torna-se sinal da Páscoa, sinal da vida nova que Deus quer e preparou para todos. É possível enumerar vários acontecimentos que confirmam a convivência entre a realidade e a realização da Páscoa e os fatos e situações que indicam a direção contrária: violência, medo, fome, miséria, desastres, corrupção e maldade de todo tipo. Contudo, o fiel é chamado a ver além e através dessas realidades: a vitória de Cristo sobre a morte é também vitória sobre o pecado do mundo e seus efeitos. Os males que atravessam a nossa existência se tornam para os que veem, pela fé, sinais da realidade maior e melhor.

            ‘Os sinais da ressurreição alcançam multidões e suscitam a fé. A palavra de Deus nos mostra que o Senhor é presença, permanente na comunidade cristã e ele nos deixa o dom da paz e da reconciliação.

            O movimento de Jesus vai crescendo graças a comunidades generosas e comprometidas. A comunidade fiel a Jesus vive e propaga a paz e a reconciliação. Jesus ressuscitado anima e sustenta a comunidade fiel a ele’ (cf. Liturgia Diária de Abril de 2013 da Paulus, pp. 30-33).

            Em tempos de ofertas religiosas de mercado, os espetáculos e as manifestações milagreiras tendem a desenraizar a experiência de Deus. Valem as ‘curas’, os choros, os arrepios, as emoções movidas por supostas adivinhações ou ‘revelações’ misteriosas. Ninguém olha para as próprias feridas e para as feridas alheias para reconhecer a vida secreta que nelas habita. Os obstáculos e desafios não servem mais para fortalecer e serem abraçados como cruz do discipulado. São evitados. Aceita-se a indiferença, sem qualquer perspectiva de solidariedade, de profetismo, de luta em vista de uma transformação. A Páscoa nos convida para algo mais: para a luz que brilha na noite, para a palavra que recria, para vida que emerge das águas, para o pão que cria vida ao ser partido. A fé está enraizada na vida; na existência faz seu húmus. A ressurreição eleva aquilo que a encarnação assumiu” (cf. Roteiros Homiléticos da Páscoa de 2013 da CNBB, pp. 37-41).

            Acolhamos o dom da paz e do Espírito que nos constitui em artífices de relações novas, reconciliadas e fundadas na justiça e na misericórdia.

            Desejando a todos muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço amigo,

Pe. Gilberto Kasper

(Ler At 5,12-16; Sl 117(118); Ap 1,9-13.17-19 e Jo 20,19-31).