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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A QUARTA-FEIRA DE CINZAS INICIA A QUARESMA


Pe. Gilberto Kasper*
            
Iniciamos, nesta Quarta-Feira de Cinzas, dia de jejum e abstinência, o sagrado tempo da Quaresma para celebrarmos, de coração renovado, o mistério pascal de Jesus. Desde os tempos mais antigos, a Quaresma foi considerada como período de renovação espiritual, de revigoramento interior, para o testemunho do Evangelho.

A celebração da bênção e a imposição das cinzas lembram as palavras de Jesus: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).

Pela escuta da Palavra do Mestre e pela acolhida da misericórdia divina revelada em Jesus, superam-se a falsidade e a infidelidade, constitui-se o novo povo de Deus. É nesta perspectiva que podemos compreender a palavra do Evangelho proposto para a celebração da Quarta-Feira de Cinzas: os cristãos são chamados pelo Mestre a assumirem, com fidelidade, as obras da justiça – no relacionamento com o próximo: a esmola; para com Deus: a oração; para consigo mesmo: o jejum.

Na caminhada quaresmal, somos convidados a fazermos a experiência de Deus que acolhe nossa penitência, corrige nossos vícios, cuida de nós incansavelmente, fortifica nosso espírito fraterno, nos dá a graça de sermos nós também misericordiosos.

Na Igreja Santo Antoninho, Pão dos Pobres, na Avenida Saudade, 222-1, nos Campos Elíseos de Ribeirão Preto, teremos a Celebração do Início da Quaresma com a bênção e imposição das cinzas e a Abertura da Campanha da Fraternidade cujo tema deste ano é: FRATERNIDADE E JUVENTUDE, e o lema: “Eis-me aqui. Envia-me” (Is 6,8), às 19 horas.

            *pe.kasper@gmail.com
Mestre em Teologia Moral, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

HOMILIA PARA O PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA DE 2013


Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

            “O sagrado tempo da Quaresma caracteriza-se pela vivência profunda do mistério da paixão do Senhor. Na Quarta-Feira de Cinzas, iniciamos a caminhada quaresmal em direção da Páscoa de Jesus e nossa.

            Para as comunidades cristãs, a caminhada quaresmal se apresenta como um tempo de graça em que o próprio Deus, por seu Filho e no Espírito Santo, nos fortalece na fé e nos educa para o verdadeiro sentido da vida, o qual irrompe definitivamente na Páscoa. A Quaresma, que nos conduz à celebração da Santa Páscoa, é um tempo litúrgico muito rico e importante que requer ser vivido com o devido empenho pela prática da caridade, da oração e da escuta da Palavra de Deus.

            A Quaresma deste ano insere-se nas comemorações do cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II. Na palavra de João Paulo II, o Concílio se constituiu numa grande graça que beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do próximo século. E o Papa Bento XVI, por sua vez, afirma: ‘o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja’ (Carta Apostólica Porta Fidei, n.5). Em sintonia com o Ano da Fé, a Quaresma é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo. No mistério da sua morte e ressurreição, Deus revelou plenamente o Amor que salva e chama os homens à conversão de vida por meio da remissão dos pecados (cf. At 5,31).

            ‘A profissão de fé no Deus salvador é disposição constante do povo fiel ao longo da história da humanidade. O ‘credo do israelita’ é reconhecer a ação libertadora de Deus na história, comprometendo-se com ele. Jesus nos ensina como nos libertar das tentações do dia-a-dia. O ‘credo do cristão’ é aceitar Jesus como o Senhor ressuscitado dos mortos.

            Frutos da terra e do trabalho humano, os bens que recebemos de Deus (emprestados e não como propriedade nossa, motivo pelo qual devemos superar a avareza, o egoísmo, a insensibilidade com os que têm menos do que nós, sem acumular nada do que não conseguiremos levar à eternidade no dia em que nosso nome ecoar na mesma e, muito menos, esbanjar o que poderia enriquecer a dignidade de mais de um bilhão de pessoas que passam fome, diariamente, no mundo) tornam-se pela ação de graças a ele, sinais sacramentais de sua benevolência e promessa de bens maiores e eternos’ (cf. Liturgia Diária de Fevereiro de 2013 da Paulus, pp. 59-62).

            Depois de ser batizado nas águas do rio Jordão e ser publicamente proclamado como o ‘Filho amado de Deus’, Jesus é ‘conduzido pelo Espírito ao deserto’. Mais do que lugar geográfico, o deserto é oportunidade de prova e de afirmação da fidelidade à missão. Jesus rechaça as propostas do tentador, ratificando sua determinação de se entregar até às últimas consequências, obediente à vontade do Pai, e de cumprir sua missão segundo o projeto que fora confiado. [...]

            Gosto de pensar que o problema não é o pecado e nem as tentações que diariamente nos são propostas. São-nos apresentadas muito apetitosamente. O problema é ceder ao pecado e às tentações. Elas nos cercam a todo o momento. Percebê-las, constatá-las, e até discerni-las não é nosso problema. Só trairemos a fidelidade para com Deus, na medida em que cedermos ao pecado e às tentações. [...]

            A Quaresma se apresenta como um tempo de sobriedade que favorece a oração, a prática da caridade e a revisão de vida. Ela é tempo de graça de Deus que nos conduz às alegrias da festa da Páscoa.

            Por isso, a caminhada quaresmal pode se constituir para nós num tempo em que somos conduzidos pelo Espírito ao deserto. Uma oportunidade ímpar para avaliar se nossos projetos de vida, nosso modo de ser e agir corresponde ao projeto de Deus, para purificar nossa prática religiosa, por vezes, infantil e interesseira, alicerçada em milagres ou na prática de uma fé sem responsabilidade comunitária; para superar a prática religiosa construída segundo as nossas opções e exigências; e para rechaçar o império do materialismo consumista que cultua o lucro, o acúmulo, o ter e o consumir.

            Naturalmente, a conversão quaresmal só é possível se tivermos a coragem de nos confrontarmos com a Palavra de Deus. Palavra que deve encontrar acolhida e moradia em nós, fazendo calar a voz dos ‘ídolos’ que nos envolvem e atordoam. Conversão que significa nos alienar de nossos insignificantes e confusos projetos para assumir algo mais radical e original que nos conduza à proclamação, com todo o nosso ser, de que Jesus, vencendo as tentações do deserto, triunfará também na definitiva e última tentação da Cruz.

            Assim como Jesus, hoje, nós somos conduzidos ao deserto para uma experiência viva de fé. Caminhando nas areias do deserto, o Espírito nos liberta do ‘homem velho’ e nos amadurece para o compromisso com o ‘novo’. Que o grande retiro quaresmal alimente nossa fé” (cf. Roteiros Homiléticos da Quaresma 2013 da CNBB, pp. 21-27).

            Finalmente a primeira semana da Quaresma, neste ano à luz do ANO DA FÉ, nos indica pequenos exercícios penitenciais, que tentarão lapidar nossa fé esclerosada, envelhecida, mofada nos porões de nossa intimidade. Saibamos deixar arejar a fé, recebida em nosso Batismo. Uma das tarefas interessantes seria saber o dia de nosso batismo. Renovarmos o propósito de não falarmos mal de ninguém, sendo Anjos uns para os outros. Outro bom exercício para esta semana, seria procurarmos não mentir. Não importa chegarmos ao final do dia e não termos conseguido. No dia seguinte, renovemos novamente tais propósitos, repetindo-os como decoramos a tabuada. Em quarenta dias, haveremos de conseguir mudar, pelo menos, alguma coisinha feia em algo maravilhoso diante de nós mesmos, de Deus e dos outros.

           Desejando-lhes bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço amigo e fiel,

Pe. Gilberto Kasper
(Ler Dt 26,4-10; Sl 90(91); Rm 10,8-13 e Lc 4,13)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O SANTO PADRE TESTEMUNHA PROFUNDA HUMILDADE


Pe. Gilberto Kasper*

            A notícia da renúncia ao “Serviço Petrino” que o Santo Padre, o Papa Bento XVI anunciou no dia 10 de Fevereiro, surpreendeu o mundo, não apenas os católicos, como todas as denominações religiosas. Dia 28 de Fevereiro de 2013, às 20 horas (Hora de Roma e 17 horas de Brasília) fica vacante a Sé de Roma e a Cadeira do Sucessor de Pedro, o primeiro Papa nomeado pelo próprio Cristo.
            A renúncia mais surpreendeu porque o último que o fez foi Gregório XIV em 1415, há seiscentos anos. Os motivos que o Papa Bento XVI apresenta são sua idade avançada; completará 86 anos dia 16 de abril, sua saúde debilitada e rápida mudança de época que exige uma assoberbada agenda papal de compromissos. Diz-se frágil para continuar “remando a barca de Pedro, que é a Igreja Católica Apostólica Romana”.
            Ao ser eleito (no caso de Bento XVI a 19 de abril de 2005), o Papa despe-se de todo seu ser, para dedicar-se plenamente ao “Serviço Petrino”, que é conduzir a Igreja com suas conquistas e limites. Entrega-se totalmente à vontade de Deus, deixando-se conduzir pelo Espírito Santo, em busca da configuração de Cristo, o Bom Pastor. E a exemplo de Cristo na cruz, atrai para si todas as culpas, já que a Igreja é santa porque conduzida pelo Espírito Santo, mas também pecadora porque formada por todos os  seus filhos, pessoas cheias de limites e pecados.
            Com quanta rapidez emitimos juízos e críticas, tantas vezes infundadas contra a pessoa do Papa, esquecendo-nos, de que quando eleito, se desfaz do próprio nome, de seu vestuário, nunca mais volta para o aconchego de seu lar, nem mesmo para apanhar algo de sua predileção. O Papa anula-se totalmente para, com a liberdade necessária dedicar-se exclusivamente ao Reino de Deus. Só que tal liberdade o aprisiona ao Vaticano, a Residência Pontifícia, tendo de usar sempre as mesmas vestes, cercado por dezenas de seguranças, abrindo mão de seus hábitos e não poucas vezes de suas vontades próprias. Coloca em seu coração uma Igreja do mundo inteiro: seus filhos, seus desafios, seus problemas e projetos. Quem sou eu e quem somos nós, para “falar mal do Papa” o que fazemos sem medidas com tanta frequência? Só uma pessoa profundamente corajosa, coberta pela graça de Deus, escolhida a dedo por Jesus Cristo, conduzida pelo Espírito Santo e agraciada pela proteção de Maria Santíssima, é capaz de prestar tamanho “serviço pela santificação da humanidade”.
            Não me agradam expressões como cargo e função. Prefiro a expressão “serviço”, o mesmo instituído pelo próprio Cristo na Última Ceia com seus Apóstolos, Seguidores e Seguidoras mais próximos. Naquela ocasião instituiu os Sacramentos da Ordem, da Eucaristia e gosto de afirmar, também da Humildade!
            Ao renunciar seu Serviço Petrino, O SANTO PADRE TESTEMUNHA PROFUNDA HUMILDADE! Oxalá todos nós, especialmente os que não abrem mão de suas funções e cargos e pensam ser insubstituíveis, aprendamos a lição de tão linda Humildade. Saibamos, com João Batista e o Papa Bento XVI, reconhecer nossos limites e ter a coragem de dar lugar a outros, com maior vigor, saúde, sabedoria e disposição, para sentar em nossas cadeiras, nas quais alguns se sentam colados com a intenção: “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”.
            Se o Beato João Paulo II lotava a Praça de São Pedro, por ter tido o carisma mediático, para que as multidões o vissem, o Papa Bento XVI, tímido e discreto, lotava a mesma Praça no Vaticano, por sua sabedoria revelada em suas catequeses e riquíssimas obras escritas, para que as multidões o ouvissem! Reconhecer sua fragilidade e renunciar é um gesto de grandiosidade, que seguramente poucos líderes políticos e eclesiais tem.
            Finalmente, ao celebrarmos o cinquentenário do Concílio Ecumênico Vaticano II ambos: o Beato João Paulo II e o Papa Bento XVI se cobriram de coragem e ousadia para pedir perdão à humanidade, dos pecados de alguns dos membros da Igreja Católica Apostólica Romana, bem como para alargar como nunca antes na História da Igreja, o diálogo ecumênico e inter-religioso com as diversas denominações, sem, porém, relativizar a fidelidade de tudo aquilo em que cremos. A grande preocupação dos dois Papas, e muito especialmente de Bento XVI, foi a recristianização da Europa e de outros Continentes ocos de valores evangélicos e do próprio Deus de nossa História.

*pe.kasper@gmail.com
Mestre em Teologia Moral, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista.