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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

HOMILIA PARA O 29º DOMINGODO TEMPO COMUM DE 2012

DIA MUNDIAL DAS MISSÕES, DA OBRA PONTÍFICIA DA INFÂNCIA MISSIONÁRIA
 
“Brasil missionário, partilha tua fé”.
 
Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
 
            “Estamos no penúltimo domingo de outubro, Dia Mundial das Missões, da Obra Pontifícia da Infância Missionária, quando fazemos a coleta para as missões. É importante relembrar a participação e o compromisso missionário de todos os membros da Igreja. ‘Na Igreja de Cristo, todo batizado é missionário’. Em conformidade com o lema de Aparecida, todo discípulo é necessariamente missionário: ‘Discípulos missionários em Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida’.
            Nossa coleta seja generosa, signifique sim, a partilha de nossa pobreza, porém doação consciente e não aquilo que nos sobra. Nossa oferta só agradará a Deus, se for parte de nós mesmos em favor dos que necessitam de nossa benevolência para a evangelização. Pensemos em nossos Padres Missionários Maciel (no Japão), Acássio e Marcus Vinícius (em Manaus), bem como de todos aqueles que usufruírem de nossa pequena parcela, mas que somada será um alívio na nobre Missão de todos que se despem do conforto para anunciar Jesus Cristo além-fronteiras. Abramos mão de algo em favor de nossos irmãos corajosos, o que será agradável aos olhos de Deus e recompensa provinda de Seu Coração misericordioso.
                        Na Liturgia deste 29º domingo, vemos novamente um anúncio da Paixão e celebramos o verdadeiro significado do poder e do reinado de Cristo, que se traduz em serviço. Jesus inverte a lógica humana e explicita a lógica de Deus, pela qual os últimos são os primeiros; os que se elevam são humilhados; quem se humilha é exaltado; os que querem ser grandes devem se tornar servidores de todos.
            ‘O serviço generoso e gratuito é o norte do cristão, mas há sempre o risco de preferirmos o prestígio e escolhermos ser servidos. Esta liturgia nos convida ao compromisso com o projeto de Jesus, que nos dá lição de doação e nos revela sua missão. Neste domingo das missões, celebremos em comunhão com todo o Brasil missionário, chamado a partilhar o dom da fé.
            Jesus veio para servir a humanidade e por ela dar a vida. Apresentando o exemplo do servo sofredor, a palavra de Deus nos convida a permanecer firmes na fé e no serviço fraterno e humilde ao povo necessitado.
            O servo de Javé é pessoa justa que ofereceu a vida em expiação. Mesmo glorificado, Jesus continua nosso intercessor. Jesus nos propõe algo difícil: servir, e não buscar ser servidos.
            Com o pão e o vinho (deste domingo), apresentemos a Deus a vida e os desafios dos missionários (nossa oferta generosa, a Coleta das Missões), que atuam nas mais diversas realidades em nosso país e no mundo’ (cf. Liturgia Diária de Outubro de 2012 da Paulus, pp. 65-68).
            A Palavra deste domingo questiona diretamente a lógica humana do poder e reprova, tenazmente, toda forma de soberba, opressão ou carreirismo discriminatório. Provoca as instâncias que exercem poder sobre o significado de sua existência: existem para o serviço a ser prestado ou para si mesmas?
            Para o cristão, ser grande significa colocar-se a serviço; trabalhar em prol dos outros. A autoridade provém da humildade.
            Diante de toda concepção mundana de poder, a Liturgia nos propõe pelo menos duas dimensões do exemplo de Jesus. A primeira: a do Servo de Javé, que carrega a culpa de outros para torná-los justos. Isso reporta ao evangelho, quando Jesus afirma que o ‘Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate para muitos’ (cf. v. 45). A segunda: o que motiva a atitude desse servo. Ela aparece na segunda leitura, na qual Cristo é o sumo sacerdote que se compadece das fraquezas dos seres humanos e se permite ser um de nós, provado como nós.
            Não são, portanto, o poder e o destaque que tornam alguém grande aos olhos de Deus, mas o quanto cada um é capaz de compadecer-se do outro e colocar-se a serviço dele (cf. Roteiros Homiléticos da CNBB n. 23, pp. 65-69).
            A Palavra de Deus deste domingo nos orienta claramente e destina-se a pessoas públicas, que se colocam a serviço por livre vontade, escolhidas, nomeadas ou eleitas. O certo é que tais pessoas aceitam servir, o que implica que saibam o que significa de verdade ser SERVO!
            O serviço a que se refere o Evangelho deste domingo é endereçado a grupos de pessoas no nível social, eclesial e político. Elegemos 22 Vereadores para nossa cidade de Ribeirão Preto que tem aproximadamente 620 mil habitantes. Oxalá saibamos estar atentos, exercendo nossa cidadania em relação à Câmara de Vereadores. A Casa de Leis, não é a Casa dos Vereadores, antes é a Casa do Povo. Uma vez eleitos, são obrigados a tratar o povo com respeito, dignidade, transparência, verdade e justiça. Nenhum Vereador tem o direito de virar as costas a quem quer que procure a Câmara. E os que já o fizeram, legislando apenas para os que consideram seus “eleitores”, tratem de mudar e converterem-se em SERVORES DO POVO TODO, abominando a ideia de que sua autoridade lhes dá o direito de sentirem-se os donos da verdade, da vontade e do próprio Povo. É urgente que o povo seja mais politizado, participativo, atento e usufrua de sua dignidade e cidadania não poucas vezes subestimada, surrada e ferida. Ninguém seja excluído da mesa començal dos direitos de um cidadão, filho de uma cidade que se diz a Capital da Cultura, do Agronegócio, mas que descuida da maioria de seus cidadãos em suas necessidades básicas. Nosso povo não precisa de honrarias, privilégios, nomes de ruas e praças: precisa urgentemente de cuidados básicos, que lhe devolvam a dignidade, o orgulho e a esperança de dias melhores.
            Teremos um Segundo Turno para eleger o Executivo de nossa cidade. Não continuemos “desencantados” como na Campanha do Primeiro Turno. Não nos deixemos iludir, muito menos subestimar em nossa capacidade de discernir. Estejamos atentos às propostas mais contundentes, reais, concretas e justas para os próximos anos de nossa cidade. Costumo pensar que a capacidade de alguém que se dispõe a servir não se mede pelos ataques ao adversário. Quem perde saliva e tempo falando mal do outro, é incapaz de propostas concretas e reais de governo. Isso serve também para nós, ministros ordenados: não existe atitude mais feia, do que assumir a liderança de uma comunidade e rasgar sua história que lá encontra. Falar mal do colega que sucede é mais feio ainda. Quem chega, deve ter a capacidade de amar e acolher quem e o que encontra já em andamento. Do contrário não passa de alguém em busca de poder, prestígio e honra. Isso não é nada humano, é antes feio. Daí meu exercício comigo mesmo e diário: transformar sempre:
 
 
Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço amigo,
 
Padre Gilberto Kasper
(Ler Is 53,10-11; Sl 32(33); Hb 4,14-16 e Mc 10,35-45)

terça-feira, 16 de outubro de 2012

EDUCADORES E EDUCANDOS

Pe. Gilberto Kasper
 
            O mês de outubro é marcado pelo Dia da Criança (Educando) e do Professor (Educador). O que costumamos chamar de “Educação de Berço” já não existe mais. Se até mesmo o leite materno é terceirizado no quarto mês de vida da criança, imaginem a educação! Os Educadores acolhem que tipo de Educandos? Crianças repletas de estímulos que muitas vezes não têm o que comer em suas casas quanto mais inseridas na era digital. Pais de famílias oriundas da pobreza, que trabalham tanto, que não têm como acompanhar os filhos em suas atividades escolares, e pior em orientá-los para a vida. Isso sem falar nas famílias impregnadas pelas drogas e destruídas pela ignorância e violência, causas essas que infelizmente são trazidas para dentro da maioria das escolas.

            Não gosto de comparar épocas, mas quando penso na minha infância, onde pai e mãe, tios e avós estavam presentes e onde era inadmissível faltar com o respeito aos mais velhos, quanto mais aos professores e não cumprir as obrigações fosse escolares ou simplesmente caseiras, faço comparações com os educandos de hoje repletos de estímulos. Estímulos de que? De passar o dia na rua, não fazer as tarefas, ficar em frente ao computador, alguns até altas horas da noite, brincando no Orkut, ou o que é ainda pior envolvidos nas drogas. Sem disciplina seguem perdidos na vida.

            O que tínhamos nós, os mais velhos, há anos atrás de estímulos? Simplesmente: responsabilidade, esperança, alegria!

            Esperança que se estudássemos teríamos uma profissão, seríamos realizados na vida. Hoje os jovens constatam que se venderem drogas vão ganhar mais. Para que o estudo? Por que numa época com tantos estímulos não vemos olhos brilhantes nos jovens? Quem, dos mais velhos, não lembra a emoção de somente brincar com os amigos, de ir a piqueniques, subir em árvores?

            E, nas aulas, havia respeito, amor pela Pátria. Cantávamos o Hino Nacional diariamente, tínhamos aulas “chatas” só na lousa e sabíamos, ao contrário de hoje, ler, escrever e fazer contas com fluência, sem brincar com celulares durante as aulas. Se não soubéssemos não iríamos para a 5ª série – não havia aprovação progressiva. Precisávamos passar pelo terrível, mas eficiente, exame de admissão. E tínhamos motivação para isso. Não nos prometiam recompensas para passarmos de ano. A recompensa era o sabor da conquista pessoal.
            Nossa Senhora Aparecida, Mãe, Rainha e Padroeira do Brasil proteja nossas crianças e Santa Teresa de Jesus, Doutora, incentive nossos Professores!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

HOMILIA PARA O 28º DOMINGO DO TEMPO COMUM DE 2012

MÊS MISSIONÁRIO


“BRASIL MISSIONÁRIO, PARTILHA A TUA FÉ!”

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

            “Estamos no segundo final de semana do mês de outubro, Mês dedicado às Missões e ao Rosário.

            A leitura do evangelho deste domingo traz presente a dimensão vocacional.

            Quem pode ser salvo? Perguntam, com espanto, os discípulos. Todos aqueles que aderem a Deus e a seu Reino, o considerando como sua verdadeira e maior riqueza. ‘Em comparação com ele (a sabedoria a que se refere a 1ª leitura), julguei sem valor a riqueza’ (cf. Sb 7,8), pois ‘uma riqueza incalculável está nas suas mãos’ (v. 11b).

            Na segunda leitura, continuamos a ouvir a Carta aos Hebreus, iniciada no domingo passado, a qual se estenderá até a Solenidade de Cristo Rei do Universo. Neste domingo, refletimos sobre a profundidade da Palavra.

            ‘Assim como fez o homem rico, Jesus nos dirige sua palavra viva, que nos convida a abandonar tudo o que não condiz com o evangelho a fim de sermos seguidores dele. Nem a todos o Senhor pede o abandono de tudo para segui-lo, mas a todos mostra que o acúmulo e o enriquecimento ilícito não combinam com os valores do reino por ele pregado.

            Deixemo-nos tocar e julgar pela palavra de Deus, a qual não se reduz a leis e regras a serem cumpridas. Ela nos fornece sabedoria para discernirmos o que é importante e o que deve ser deixado de lado, no seguimento de Jesus.

            Precisamos da sabedoria divina para discernir os valores importantes. Os passos do discipulado cristão são: viver os mandamentos de Deus, partilhar os bens e seguir Jesus. A Carta aos Hebreus nos mostra a importância e o valor da palavra de Deus para as comunidades” (cf. Liturgia Diária de Outubro de 2012 da Paulus, pp. 49-52).’

            Embora não se esgote nisso, três ideias podem nortear a reflexão deste domingo: 1º) o seguimento de Jesus (quer na vocação de todo batizado, quer na vocação específica) requer desapego e disponibilidade (isto é, colocá-lo em primeiro lugar); 2º) sábio é aquele que prefere a sabedoria de Deus em lugar de todos os bens e promessas humanas; 3º) a consequência do desprendimento dos bens é a partilha.

            ‘Penso que há uma grande diferença entre ser sábio e ser sabido. O sabido é quem possui grande quantidade de informações, títulos, diplomas, bens perecíveis, prestígios, funções e cargos, sem saber administrá-los ou achando que é a pessoa mais feliz e reconhecida do mundo por isso. Pobre coitado!  Esvazia-se de Deus, para endeusar-se sobre os outros. Como isso é frequente em nossas Comunidades Eclesiais, Políticas e Sociais. É vazio e oco do essencial. Julga os outros sem piedade, pensando ser o melhor, porque demonstra ser ‘certinho e cumpridor das regras, pelos menos aquelas que o determinam melhor sobre os demais. Coisa feia, quando percebemos tais atitudes, sobretudo em ministros ordenados, políticos, artistas e representantes do Povo.  Confinado num pedaço de madeira no dia em que seu nome ecoar na eternidade, deixará tudo para trás. E vazio de Deus não terá como transcender à eternidade feliz, o fim último de todas as criaturas humanas! Já o sábio, tendo ou não ‘muitas coisas’, pede sua participação na sabedoria divina. Sabe administrar todos os dons e qualidades que lhe são concedidos, gratuitamente, pelo Criador de tudo. Não se importa com elogios, não necessita de reconhecimentos e nem de títulos e prestígio. Há maior prestígio do que o elogio vindo do coração misericordioso do Senhor? Façamos a Leitura Orante da página do Livro da Sabedoria deste domingo, que nos orienta tão claramente sobre esta questão. Quem não mergulhar nas profundezas do apelo de Deus nesta página, ainda está longe do Reino. E tudo aquilo ou aquele que não é de Deus cai. Um dia cai.’

            ‘Que se deve fazer para receber a vida eterna?’. Eis uma pergunta que cada um de nós também faz, em seu coração, com estas ou outras palavras semelhantes.

            Jesus responde que, inicialmente, se deve viver conforme os mandamentos, porém, o simples cumprimento das obrigações não é suficiente, é exigida do coração uma opção que assuma o Reino de Deus e o seguimento como a maior riqueza da vida; exatamente como ilustra a parábola do tesouro encontrado no campo (cf. Mt 13,44-46). Cabe-nos o questionamento a respeito da importância que atribuímos ao Reino e ao seguimento. A ‘formula’ para calcularmos essa importância é através do desapego. O que seríamos capazes de renunciar, em função do Reino?

            O ensinamento de Jesus aqui não é tanto sobre o desprezo dos bens, como se eles não tivessem valor em si mesmos, mas o de que o Reino deve ser colocado em primeiro lugar por todo aquele que quiser ganhar a vida eterna.

            Quais as coisas que se antepõem ao Reino, na sociedade de hoje? Quais delas se fazem presentes em minha vida pessoal e se antepõem ao Reino?

            Na dimensão da partilha, destacada nos textos deste domingo, vê-se a certeza de que o desapego, em nome do seguimento de Jesus, não é em vão, mas produz ‘cem vezes mais’ (cf. v.30). A partilha garante ‘um tesouro no céu’ (cf. v.21).

            Diante dessa Palavra, nos confrontamos com o egoísmo e materialismo do mundo de hoje, misturados ao individualismo, ao acúmulo de bens e ao vazio da laicização (um mundo que nega o valor, como palavra digna de crédito, da religião institucionalizada).

            Cabe aos cristãos de hoje reassumirem, com coragem, a prioridade do Reino sobre todos os desvalores egoístas e apegados do mundo atual. Cabe-lhes testemunharem a Sabedoria da Palavra de Deus que é ‘viva, eficaz e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes’ (cf. Hb 4,12). Seremos perseguidos (cf. Mc 10,30), mas receberemos a vida eterna e cem vezes mais felicidade do que a recebida na lógica do mundo do egoísmo e do apego” (cf. Roteiros Homiléticos n. 23 da CNBB, pp. 58-64).

            “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5,3). Existe uma diferença entre ser Pobre em espírito e Pobre de espírito. O pobre em espírito sempre tem espaço para o amor de Deus em seu coração, e faz a experiência de Sua Sabedoria e Misericórdia em suas relações. Já o pobre de espírito é aquele autossuficiente, arrogante, prepotente, que pensa bastar-se a si mesmo. Para muitos de nós sermos os ricos fadados à miséria eterna, porque vazios de Deus, só nos falta mesmo o dinheiro, pois até pose de ricos já temos. Quem não sonha em ser rico, tendo sempre mais coisas do que possui? Eis o convite à nossa conversão: “estarmos nus e descobertos aos olhos de Deus; sendo do jeito que somos de verdade” (cf. Hb 4,13b).

Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, meu abraço sempre fiel e amigo,

Padre Gilberto Kasper

(Ler Sb 7,7-11; Sl 89(90); Hb 4,12-13 e Mc 10,17-30)