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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS - FESTA DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS - DIA MUNDIAL DA PAZ

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé! 



            Estamos vivenciando as festas natalinas, com a celebração da manifestação do Senhor em nossa vida e história. Nossa atenção se volta ao mistério da Mãe do Senhor sob o título de “Mãe de Deus”, neste ano com sabor de Ano Nacional Mariano, instituído pela Igreja no Brasil em ação de graças pelos 300 anos do encontro da imagem de Aparecida.
            Ao afirmar que o Menino, nascido de Maria, é Deus, em decorrência disso, a Igreja proclamou que Maria é Mãe de Deus. E isso não é de agora. Desde muito, nós cristãos honramos “... Maria sempre Virgem, solenemente proclamada Mãe de Deus pelo Concílio de Éfeso, para que Cristo fosse reconhecido, em sentido verdadeiro e próprio, Filho de Deus e Filho do homem, segundo as Escrituras” (UR, n. 15: Decreto conciliar sobre a reintegração da Unidade dos cristãos).
            Neste Dia Mundial da Paz, iniciando um novo ano, a paz é desejada, suplicada como sinal da bênção e da proteção permanente de Deus. É em nome de Jesus, a plenitude da bênção, que invocamos bênçãos de paz sobre nós e sobre os povos em conflito.
            A alegria deverá orientar nossa primeira celebração religiosa do novo ano civil.  As festas e os brindes da Passagem do Ano, geralmente, impedem as pessoas de participarem desta significante celebração. Muitos dormem sua ressaca, outros nem conhecem a profundidade de tão linda celebração, que deveria ter maior prioridade entre os cristãos. Acolhidos por Maria, Mãe de Deus e nossa, desperdiçamos a oportunidade de pedir a ela que nos acompanhe ao longo dos próximos 365 dias. Neste 50º Dia Mundial da Paz, somos conclamados a fazer nossa a proposta do Papa Francisco: “A não violência: estilo de uma política para a Paz!”. Segundo o Papa Francisco, a fraternidade pode superar a “cultura do descartável” e promover a “cultura do encontro”. O Deus da bênção e da paz nos congregue numa só família.
            O povo pode contar sempre com as bênçãos de Deus. A maior delas é a vinda do seu Filho, graças ao sim de Maria. A exemplo dos pastores, vamos abrir o coração e nos dispor para o encontro com Jesus.
            Deus quer nos abençoar ao longo de todo este ano. Os pastores, gente pobre e desprezada, são os primeiros a ir ao encontro de Jesus. Deus conta com a colaboração humana para realizar seus projetos. Os pastores cheiram mal, pois cuidavam de ovelhas e viviam ao relento. Poderíamos compará-los, em nossos dias, aos irmãos coletores de lixo. Imaginem que eles correm mais de trinta quilômetros por noite, em nossa metrópole rica e privilegiada, recolhendo nosso lixo depositado nas calçadas. Enquanto as autoridades eclesiásticas, políticas, civis e a nata da elite de uma sociedade economicamente privilegiada pensam anunciar o Salvador do mundo, este se revela, através da Corte Celestial dos Anjos, aos preteridos e “fedidos” entre todos: na época os Pastores; hoje, talvez, nossos Coletores de Lixo, ou aqueles que consideramos Lixo Humano entre nós: os idosos, os enfermos, os dependentes de alguma droga lícita ou não, e nem por último os mendigos mal-cheirosos que adentram nossas celebrações, pedindo uma esmola para suportarem a exclusão com mais um gole de cachaça ou uma cheirada de craque... Se não estivermos abertos ao diferente, ao simples, e não fizermos a experiência da humildade, deixando de lado nossa prepotência, arrogância, autossuficiência, corremos o risco de desencontrar-nos com o Senhor que só nasce mesmo em manjedouras simples, humildes, puras e livres para acolhê-lo.
            A exemplo de Maria, humilde serva do Senhor e bendita entre as mulheres, cantemos um hino de ação de graças ao Pai, que nos cumulou de bens por meio de seu Filho, especialmente neste Ano Nacional Mariano!
            A palavra de hoje ressalta a imposição do nome de Jesus, sua inserção na sociedade humana. Como o Filho de Deus, nós também recebemos um nome ligado à nossa existência e à nossa missão. A atitude dos pastores nos ensina a acolher e anunciar a Boa Notícia da presença do Salvador em nosso meio. Com Jesus, nos tornamos herdeiros da salvação e podemos clamar: Abba, Pai, vivendo fraternalmente como irmãos e irmãs.
            Maria, a mãe de Jesus, é imagem da comunidade fiel e comprometida com o plano da salvação.
            Com o exemplo de Maria no seu sim incondicional, assumimos “de boa vontade” a proposta de Jesus de sermos promotores da paz em nossos lares e na sociedade em que vivemos.
            Invoquemos com confiança a bênção do Senhor, o Deus de bondade, sobre todos os povos e nações, neste Dia Mundial da Paz. Que ele guarde, ilumine, mostre a sua face de Pai e dê a paz a todos. Com Jesus, o Filho de Maria, a maior bênção da salvação para toda a humanidade, nos comprometemos a trabalhar alegremente na construção da paz.
            Saibamos rezar por nossos Governantes: os Prefeitos e Vereadores eleitos para promover, além da paz, a maior dignidade de todos os Filhos de Deus. Estejamos atentos e tenhamos a coragem e ousadia proféticas de “cobrar” melhores condições de vida em todos os setores que garantam uma vida digna a cada cidadão, sem nenhuma acepção ou discriminização, deixando de lado as inúmeras “barganhas” divulgadas no ano que se declina. Formemos “consciência política crítica” neste novo Ano! Não é a economia de um País que o determina civilizadamente desenvolvido. É a dignidade do Povo de um País que deverá discernir sempre nossa cidadania, direitos e deveres! A cultura do consumo e do lucro à custa da indigência do Povo precisa ser superada pela Cultura do Encontro, da Fraternidade, da Partilha e da Ternura!
Sejam todos muito abençoados neste Novo Ano que se inicia.  Sejamos protagonistas da paz por onde passarmos, exalando o perfume da ternura em nossas relações.

Com a mesma ternura, o abraço amigo,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Nm 6,22-27; Sl 66(67); Gl 4,4-7 e Lc 2,16-21).

Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Janeiro de 2017, pp. 17-19, e Roteiros Homiléticos da CNBB para o Tempo do Natal (Janeiro de 2017), pp. 53-58.

HÁ UM SINAL NO CÉU!

Pe. Gilberto Kasper é Mestre em Teologia Moral, Licenciado em Filosofia e Pedagogia, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Docente na Associação Faculdade de Ribeirão Preto do Grupo Educacional da UNIESP, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Assessor da Pastoral da Comunicação e Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista. Contato: pe.kasper@gmail.com

Dezembro se declina e aquela sensação de final de estrada, final de ano e fim de jornada parece que se apossa de nosso coração. Conseguimos vencer mais uma batalha de trezentos e sessenta e seis dias! Graças a Deus!
           
Continuam os enfeites de Natal com as árvores e luzes que piscam e o ambiente também continua ganhando sinais de festividade, a alegria que desponta vagarosamente e assim continuamos respirando esperança. Nestes dias as cidades se enfeitaram, as músicas criaram um clima diferente, as propagandas bateram pesado, fazendo com que as pessoas quisessem comprar e gastar com o que não têm necessidade e só aumentaram a despesa com o dinheiro que nunca será suficiente.
           
Vejo as luzes enfeitando as casas, as praças, as árvores; a decoração dos ambientes tentando, por vezes, disfarçar a realidade crua da falta de respeito à vida que insiste em nos visitar, ou do amor que incansavelmente teima em nos amar. Os índices de “natal satisfatório” se medem pelo volume de venda e lucro e não pela satisfação e alegria das pessoas. Para os indicadores econômicos são levados em conta o volume do dinheiro que circulou na venda do estoque e se o resultado foi melhor que anos anteriores. Não levam em conta, nem tem o pudor de pensar nas pessoas que se matam literalmente para satisfazer um desejo ou sonho de um filho ou de alguém muito querido... A ótica do mercado, do ter e poder vai tomando o lugar da ética, dos valores do Evangelho; aliás, o mercado do consumismo não gosta de festejar o grande aniversariante do dia de Natal, Jesus Cristo! Seus valores de amor e de partilha não combinam com quem só deseja ter e comprar, lucrar e ganhar. Jesus, ao contrário ensinou que quem doa tem mais alegria e quem serve aos irmãos é mais importante no seu Reino.
           
O Natal de Luz é aquele em que a festa e o festejado é Jesus que vem se encarnar para ensinar que amor não se compra nem se vende, amor ama simplesmente. Natal iluminado não é o do pisca-pisca, mas da Estrela de Belém que continua a sinalizar o carinho de Deus que nos visita em seu amor. A Luz do Natal não é a dos refletores ou dos flashes que têm brilho passageiro, mas a Luz do amor acolhedor, sincero e generoso que diariamente procura corações para se instalar e fazer brilhar a luz mais potente do amor e da bondade que destroem as trevas escuras da mesquinhez e do egoísmo.
             
Natal da Luz é o natal celebrado na fé, no amor e na simplicidade de quem vive a acolhida generosa, com um coração despojado de si e repleto de amor que se alimenta na sua fonte genuína que é o amor manifestado a nós na manjedoura de Belém: o Menino-Jesus que pede acolhida em nossa vida. Basta ver que ainda Há um sinal no céu!

De acordo com o Calendário Litúrgico móvel, celebramos a Solenidade do Natal do Senhor no último domingo. Já no próximo celebraremos a Solenidade da Santa Mãe de Deus, Maria, com sabor de Ano Nacional Mariano em preparação aos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição, nas águas do rio Paraíba do Sul. Por isso, celebraremos a Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José na próxima sexta-feira, dia 30 de dezembro. A Santo Antoninho convida a todos para celebrarem conosco às 18 horas, na Avenida Saudade, 202, nos Campos Elíseos em Ribeirão Preto.


(Parceria com o Pe. João Paulo Ferreira Ielo, Pároco da Paróquia Imaculada Conceição de Mogi Guaçu – SP)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS - SOLENIDADE DO NATAL DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Um menino nasceu para nós:
Um filho nos foi dado!
O poder repousa nos seus ombros.
Ele será chamado ‘mensageiro do conselho de Deus’!” (Is 9,6).


            Natal é o mistério, sacramento da humanização de Deus e da divinização humana. Festa da fidelidade e da ternura de Deus para conosco. O Verbo, a Palavra eterna, a Sabedoria, a mais fiel comunicação do Pai, o Filho amado se faz pequenina e frágil criança, filho de um casal de pobres, provindo de um recanto não importante do mundo, para “realizar o direito e a justiça”.
            Não simples comemoração do aniversário de Jesus, mas a realização da promessa de Deus de fazer uma aliança eterna de amor com toda a humanidade e de restabelecer o seu Reino no mundo. Com a encarnação, afirma o Concílio Ecumênico Vaticano II, o Filho de Deus uniu-se, de certa maneira, a toda a humanidade (cf. GS, n.22) e mais ainda atingiu todo o universo (cf. GS, n.38). Iniciou-se, portanto, o misterioso processo de renovação e unificação de toda a humanidade e do cosmos com Cristo.
            Recordamos o nascimento de Jesus em Belém, pobre entre os pobres, junto com Maria e José, com os pastores de ontem e de hoje, acolhemos, com ternura e alegre júbilo, o anúncio dos anjos e a proclamação da paz a todos os “filhos amados de Deus”.
            Celebramos a páscoa de Jesus Cristo que acontece em sua Encarnação, em seu nascimento em nossa carne, no seu ato solidário de assumir em tudo a nossa condição humana, nossa corporeidade com suas necessidades vitais; nossas alegrias e tristezas, audácias e fraquezas, conquistas e fracassos.
            Do meio das palhas de sua manjedoura, acolhemos do Menino-Deus um forte apelo para o cultivo de relações novas e duradouras, valorização de tudo o que é humano, simples e pequeno, gestos gratuitos de solidariedade e benevolência entre nós e com toda a natureza.
            Jesus nasce entre pobres, migrantes, refugiados, dependentes alcoólicos e químicos, moradores de rua, crianças e famílias em situação de vulnerabilidade, pastores; encarna-se na realidade dos que sofrem. Deus entra em nossa história através de uma mulher marginalizada.
            Deus fiel é solidário com a humanidade e a humanidade pode tomar novo rumo. A glória de Deus é que a humanidade toda viva, é ação concreta repercutindo na Terra, trazendo a paz para todos.
            A Noite do Natal nos conduz às fontes de nossa fé. Noite de luzes, cores, cheiros, sons, cantos e diálogos. Jesus nasceu em Belém, casa do pão, e foi rodeado por pobres, pastores, animais... Na marginalidade, o Filho de Deus tornou-se um de nós, fez-se criança, entrou na História da humanidade e no mundo criado... A Palavra de Deus fez-se gente pequena, em um lugar pequeno, entre pequenos, para ser o Emanuel, Deus conosco para sempre. Nasce Jesus, insignificante ante os olhos da força cínica de Herodes e força endeusada do imperador de Roma; reconhecido apenas pelos que não tinham poder na terra, mas que estavam atentos aos sinais de Deus.
            Jesus nasceu de Maria, no seio de um povo sofrido e dominado, em lugar e em época bem concretos. Se falarmos apenas de Jesus que nasce em nossos corações, em nossas famílias, a encarnação poderá tornar-se uma abstração, ou um sentimentalismo individualista e barato.
            O Natal manifesta a irrupção de Deus na história humana com a seriedade de sua fidelidade às promessas de restauração de suas criaturas desviadas do projeto fundamental do Pai. Natal da pequenez e do serviço, rompendo e exigindo rompimento com o poder de dominação e prepotência do homem sobre pessoas e povos marginalizados e sucumbidos pelas botas do opressor. O verdadeiro Natal exige rompimento com o cheiro dos palácios, muitas vezes mofados. Ele nos pede aliança, proximidade com o cheiro do presépio, das ovelhas, das favelas, das periferias, das matas, da terra, das águas... Compromisso de transformação de tudo isto em nova criação, sonhada por Deus.
            Não é possível separar o Natal e realidade atual; fé cristã e história humana; encarnação do Filho amado do Pai, mas filho de Maria, na pequenez. Nossa fé leva-nos à luta cotidiana para que o cheiro do presépio e das ovelhas chegue ao palácio dos imperadores de hoje, à casa de Herodes, traidor do povo e da história da salvação.
            Que Boa Notícia a Palavra de Deus nos diz neste momento? Qual é a esperança que se firma em nosso coração?.
            Gosto muito da frase que se pronuncia, geralmente em voz baixa, durante a preparação das oferendas na Missa, enquanto se coloca uma gota de água no cálice com o vinho: “Pelo mistério desta água e deste vinho, possamos participar da divindade de vosso Filho, que se dignou assumir nossa humanidade”. Penso que esta afirmação deveria ser dita em voz alta, pois sintetiza o evento do Natal do Senhor!
            Gosto, também, de pensar como Deus dribla a humanidade, nascendo numa manjedoura, entre animais. Como se não bastasse, se permite anunciado em primeiro lugar aos mais simples dos simples: os pastores, durante uma fria madrugada. Talvez os únicos acordados naquela noite. Certamente os mais sensíveis e talvez os mais disponíveis para ouvir o jubiloso anúncio dos Anjos: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade”, isto é, aos homens e mulheres de coração aberto para acolher numa manjedoura, um recém-nascido envolto em panos, Emanuel, o Deus Conosco, na meiguice e fragilidade de um bebê. Simplesmente uma criança. Isto me convence que Deus é muito mais simples do que O complicamos! Basta estar aberto, atento, ser hospitaleiro e acolhedor. Basta ler a face do Senhor no semblante do Outro!

Feliz e Santo Natal a todos!



Pe. Gilberto Kasper
(Ler para a Missa da Noite: Is 9,1-6; Sl 95(96); Tt 2,11-14 e Lc 2,1-14).
(Ler para a Missa do Dia: Is 52,7-10; Sl 97(98); Hb 1,1-6 e Jo 1,1-18).

Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Dezembro de 2016, pp. 79-83 e 85-88 e Roteiros Homiléticos da CNBB para o Natal (Dezembro de 2016), pp. 37-47.