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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS - SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

 

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

“Felizes aqueles que ouvem a

Palavra de Deus e a guardam!” (Lc 11,28).

 

            Celebramos no Vigésimo Domingo do Tempo Comum uma das festas mais populares e consoladoras dedicadas à Virgem Maria: Assunção de Nossa Senhora!

            Cantamos as maravilhas que Deus realizou em Maria, exaltada acima dos anjos na glória junto a seu Filho Jesus. A páscoa de Cristo se realiza nos corações e comunidades que, a exemplo de Maria, se abrem à palavra de Deus e formam família com o Ressuscitado.

            Elevada ao céu, Maria intercede por nós e nos espera para que desfrutemos de sua companhia. Celebramos em comunhão com os vocacionados à vida consagrada: religiosos e consagrados seculares, que a exemplo de Maria, dão seu sim generoso ao projeto de Jesus.

            Mulher revestida de honras e glórias, Maria reconhece, agradecida, as maravilhas que Deus nela realizou em favor do povo. Ela é o grande sinal da nova humanidade redimida pelo seu Filho.

            Maria assunta ao céu é sinal da vida do povo grávido de Deus que aguarda a revelação da glória. Em Maria, humilde serva do Senhor, Deus tem espaço para operar maravilhas. A vitória de Cristo sobre a morte é símbolo também de nossa vitória.

            Maria já participa do banquete do reino com seu Filho. Quanto a nós, na eucaristia nos é concedido antecipar a alegria que o Pai reserva a todos os que são fiéis a Jesus.

            É a partir da gloriosa vitória da Páscoa sobre o pecado e a morte que nós contemplamos Maria toda gloriosa no céu. Vemos como o próprio Evangelho coloca na sua boca palavras que proclamam a beleza de Deus que, na vitória de Jesus, realizou uma tríplice inversão das falsas situações humanas, para restaurar a humanidade na salvação, obra de Cristo:

            No campo religioso, Deus derruba as autossuficiências humanas, confunde os planos dos que nutrem pensamentos de soberba, erguem-se contra Deus e oprimem os seres humanos.

            No campo político, Deus destrói os injustificáveis desníveis humanos, abate os poderosos dos tronos e exalta os humildes; repele aqueles que se apoderam indevidamente dos povos, e aprova os que os servem para promover o bem das pessoas e da sociedade, sem discriminações...

            No campo social, Deus transforma a aristocracia estabelecida sobre ouro e meios de poder, e cumula de bens os necessitados e despede de mãos vazias os ricos, para instaurar uma verdadeira fraternidade na sociedade e entre os povos.

            A festa de Nossa Senhora da Assunção representa uma injeção de ânimo para todos que, em meio a tantas dificuldades, peregrinamos na fé e na caridade rumo à pátria definitiva. Nela celebramos a esperança de estarmos todos juntos, um dia, com Maria, participando da festa que no céu nunca se acaba, a festa da total e definitiva libertação.

            Congratulando Maria, congratulamo-nos a nós mesmos, a Igreja. Pois, mãe de Cristo e mãe da fé, Maria também é Mãe da Igreja. Sua glorificação são as primícias da glória de seus filhos na fé.

            Para os tempos de hoje, no momento histórico em que vivemos, a contemplação da serva gloriosa pode nos trazer uma luz preciosa.  Que seria a humilde serva no século 21, século da publicidade e do sensacionalismo? Não se assemelha a isso a Igreja dos pobres? A exaltação de Maria é um sinal de esperança para os pobres. Sua história joga também uma luz sobre o papel da mulher, especialmente da mulher pobre, duplamente oprimida, Maria é a mãe libertadora.

            Assumindo responsavelmente o projeto de Deus, Maria é figura e esperança de quantos aspiram por liberdade e vida. Ela vem reforçar a confiança dos pobres, ao mostrar que neles o Poderoso opera maravilhas de libertação. Serva fiel, bem-aventurada porque acreditou nas promessas, solidária com os necessitados, é mãe das comunidades que lutam contra os dragões que procuram roubar-lhe as esperanças. Associada intimamente a Jesus por sua maternidade e mais ainda pela prática da Palavra participa da vitória de Cristo, primícia da vida em plenitude. O canto de Maria nos estimula a lutar pelo mundo novo já iniciado com a ressurreição de Jesus. Esse mundo novo irá se tornando realidade concreta se formos cidadãos conscientes e responsáveis.

            Reunimo-nos, neste domingo, com Maria para proclamar as maravilhas operadas em nós pela morte e ressurreição de Jesus. Desta forma, iniciamos mais uma semana que, com a graça de Deus e proteção de Maria, será uma semana de paz, abençoada.

            Nada mais justo que Jesus acolhesse de corpo e alma Sua Mãe, a Virgem Maria, na feliz eternidade, uma vez que, totalmente Imaculada emprestou seu útero, a fim de que se tornasse o porta-jóias do próprio Deus, feito pessoa. Penso que o grande convite desta festa, é que cada um de nós se sinta, igualmente, o porta-jóias, o sacrário, o tabernáculo de Jesus Sacramentado, bem como no semblante do irmão, preferencialmente no rosto triste, enrugado, sofrido, desolado e desesperançado. Enfim, celebrar, a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, para nós é celebrar novo ânimo, nova esperança e novas perspectivas de um mundo mais humano e fraterno.

            Que todos sintam as carícias da bênção materna de Nossa Senhora Assunta ao Céu! Com ternura e gratidão, meu abraço amigo e fiel,

Pe. Gilberto Kasper

(Ap 11,19; 12,1.3-6.10; Sl 44(45); 1Cor 15,20-27 e Ler Lc 1,39-56).                                 

Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Agosto de 2020, pp. 63-72 e Roteiros Homiléticos da CNBB do Tempo Comum I (Agosto de 2020) pp. 65-69.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS - DÉCIMO-NONO DOMINGO DO TEMPO COMUM

MÊS VOCACIONAL – DIA DOS PAIS

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

“A verdade e o amor se encontrarão,

A justiça e a paz se abraçarão;

Da terra brotará a fidelidade,

E a justiça olhará dos altos céus” (Cf. Sl 84).

 

             O Décimo-Nono Domingo do Tempo Comum é também o segundo domingo do Mês Vocacional, em que saudamos os vocacionados à vida em família, com atenção especial aos pais, neste dia dedicado a eles.

            Jesus espera de Pedro e de nós uma resposta corajosa a seu convite: Venham e alimentem-se da palavra e do pão eucarístico. O Senhor é nossa segurança nas tempestades da vida.

            Deus se revela na brisa mansa, mas não deixa de se manifestar também quando os ventos são contrários e as águas agitadas. A Igreja é convidada a acreditar na presença confortadora de Jesus mesmo em meio às maiores dificuldades.

            Deus nos fala de muitas maneiras, também no silêncio do coração. É preciso atravessar as ondas da resistência para construir o reino de Deus. Não podemos medir esforços na defesa do projeto de Deus.

            Na eucaristia, não basta que nos seja dado o sinal da presença de Cristo, o pão e o vinho; é necessária a fé, para reconhecer o Senhor que vem.

            Gosto sempre de insistir no silêncio para poder ouvir o que Deus tem a nos dizer. É bem verdade que devemos estar sempre atentos para podermos ler a presença do louco amor de Deus para com a humanidade nas diversas situações de nossa vida. É preciso colocar Deus no meio, aliás, acima de tudo que vai acontecendo em nosso hodierno. Como os apóstolos em meio ao vento forte em alto mar, vendo Jesus caminhando sobre as águas, somos tentados a gritar: “É um fantasma”. O mundo parece-me tão doentio, que parece ver “fantasmas” a toda hora. Vemos com mais facilidade um Cristo espetaculoso, o que dá manchete, do que um Cristo espetacular, que implica em compromisso de fé. O maior de todos os espetáculos já aconteceu: estamos vivos! Porém, andar também sobre as águas, desconfiados da presença amorosa de Deus em nossa vida, revelado por Jesus andando sobre as águas, reforça nossa autossuficiência, arrogância e prepotência. Achamos que conseguiremos resolver nossas dificuldades do nosso jeito e, frequentemente dispensamos a mão salvadora do Senhor. Assim nos afogamos em nossa própria fragilidade, deixando-nos levar pelos ventos fortes, que costumam derrubar-nos facilmente. Tais tempestades podem ser a inveja, a ganância, a busca de poder e prestígio a qualquer custo, mesmo que isso machuque outros. O egoísmo e a insensibilidade com os mais fracos. O afogamento mais frequente em nosso tempo é a depressão, a perda do sentido da vida, a sensação de fracasso, a baixa autoestima e a decepção com as pessoas nas quais confiamos mais do que no próprio Senhor da Vida! Só Deus não decepciona. Então não nos resta, senão a humildade de Pedro: sem nenhum constrangimento e nenhuma vergonha, gritemos: “Senhor, salva-me!”

            Deus vem ao encontro do homem especialmente nos momentos de necessidade... O Deus dos profetas e de Jesus é aquele que toma a defesa dos pobres e dos fracos. Ele não está nos fenômenos naturais grandiosos e violentos, mas no sopro leve da brisa, como que significando a espiritualidade e intimidade das manifestações de Deus ao homem.

            A comunidade cristã vive uma existência atormentada pela hostilidade das forças adversas, que se manifestam nas perseguições e dificuldades internas e externas. Unicamente com suas forças, ela não chegaria ao fim do seu caminho. Mas Jesus ressuscitado está presente no meio dos seus; embora invisível, ele os assiste.

            Os discípulos fazem uma travessia. Eles a fazem de barco. É noite. Ventos contrários. Mar agitado. Estamos diante de uma imensa simbologia.

            O mar era visto na época como o lugar onde habitavam monstros terríveis e ameaçadores. Mar agitado e ventos contrários, à noite, eram sentidos como sinais da fúria dos pavorosos monstros, ávidos por engolir os navegantes.

            O barco é símbolo da própria Igreja nascente, as comunidades cristãs se expandindo em missão. Nesta travessia, para o outro lado, isto é, nesta expansão rumo à pátria definitiva, as comunidades sentem-se ameaçadas por ventos contrários e pelo mar agitado, isto é, pelas violentas resistências dos poderosos (=monstros) ao projeto de Deus.

            (É bom não esquecer que os poderosos são fortes diante dos fracos, mas se tornam fracos diante dos fortes em Cristo Senhor!).

            As dificuldades que a Igreja enfrenta hoje devem nos fazer enxergar melhor a presença de Cristo em novos setores da Igreja, sobretudo na população empobrecida e excluída da sociedade do bem-estar globalizado. De repente, Jesus se manifesta como calmaria no ambiente tempestuoso das “periferias existenciais” do mundo, como costuma afirmar o Papa Francisco. Na simplicidade das comunidades nascidas da fé do povo. Temos coragem para ir até ele ou duvidamos ainda, deixando-nos levar pela onda?

            Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço amigo e fiel,

Pe. Gilberto Kasper

(Ler 1Rs 19,9.11-13; Sl 84(85); Rm 9,1-5 e Mt 14,22-33).

Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Agosto de 2020, pp. 41-47 e Roteiros Homiléticos da CNBB do Tempo Comum I (Agosto de 2020) pp. 60-64.


DÍZIMO: ATO DE AMOR E GRATIDÃO (II)!

Padre Gilberto Kasper é Mestre em Teologia Moral, Licenciado em Filosofia e Pedagogia, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Docente no CEARP – Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Assessor da Pastoral da Comunicação, Pároco da Paróquia Santa Teresa D’ Ávila e Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista. Contato: pe.kasper@gmail.com

Continuamos nossa reflexão sobre o Dízimo, que em tempo de Pandemia, sofre as consequências de um “novo normal”, que atingem as amadas pessoas e famílias de nossas Comunidades de Fé!

O Antigo Testamento apresenta o dízimo como prescrição divina. Inúmeras são as passagens bíblicas onde se prescreve a obrigatoriedade de se dar o dízimo ao culto. No Antigo Testamento prevalece o dízimo legal, no sentido literal de décima parte, consagrada a Deus, para a manutenção do culto, dos ministros e da assistência aos necessitados. “Abraão... lhe dá os dízimos de tudo” (Gn 14,18-20). “De tudo que me concede, lhe consagrarei fielmente a décima parte” (Gn 28,20). “Todo dízimo é coisa consagrada ao Senhor” (Lv 27,20). “Pode o homem enganar a Deus?... Trazei, pois, todo o dízimo para o templo de Deus” (Mt 3,8-10).

            No Novo Testamento, o dízimo toma o sentido de oferta, consciente e livre, corresponsável e comunitária, generosa e alegre, numa relação com Deus, para a manutenção do Culto Divino, Evangelização, Missão e Assistência da Comunidade Cristã.

            O próprio Cristo ensina que quem se dedica à Evangelização tem o direito de viver da pregação e nos mostra que, ao lado de deveres para com o estado, temos deveres para com a fé: “Daí a César o que é de César (impostos) e a Deus o que é de Deus (dízimo) (Lc 20,25). Em muitos outros textos no Novo Testamento, sobretudo nos Atos dos Apóstolos e nas Cartas de São Paulo, encontramos ricos testemunhos e princípios de que os cristãos devem dar a sua contribuição material para a manutenção dos ministros, as despesas do culto e a assistência aos pobres: “Recebestes de graça, daí de graça” (Mt 10,8-10). “Não sabeis que os ministros do culto vivem dos proventos do templo e os que servem o altar participam do altar? Assim aos que anunciam o Evangelho ordenou o Senhor viverem do Evangelho” (I Cor 9,4-14). “Cada um dê, conforme decidiu no seu coração, sem tristeza nem constrangimento, porque Deus ama a quem dá com alegria” (II Cor 9). “Se entre vós semeamos bens espirituais, será, porventura demasiada exigência colhermos de vós bens materiais?” (I Cor 9,11). “Os fiéis viviam todos unidos e tinham tudo em comum... repartindo tudo... conforme as necessidades de cada um” (At 2,44-45).

Sem desmerecer outras formas de contribuição, o Dízimo é a forma mais legítima de expressar a corresponsabilidade de todos os membros da Comunidade. Todos nós já estamos bastante convencidos de que a Igreja precisa dos recursos humanos e materiais para desenvolver suas atividades. E nós somos responsáveis pelos meios e recursos de que a Igreja precisa, pois nós somos membros dela. Não permitamos certo colapso em nossas Igrejas!

            Por isso separamos, do muito que Deus nos deu, uma parte que Ele nos dá e a separamos para oferecer a Deus como Ato de Amor e Gratidão! O dízimo não é “esmolinha” qualquer, não é uma contribuição forçada, não é um pagamento constrangido, porém, é uma atitude de filhos, pela qual dizemos a Deus “muito agradecido” por tudo que Ele nos deu. É a nossa pequena parte oferecida para que não falte o necessário para que os outros O conheçam e O amem.

            Devido às inúmeras dificuldades de “sobrevivermos” em nosso País, a CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil sugere que, pelo menos reservemos, mensalmente, 2% de nossos salários para o dízimo. Porém, se cada cristão católico, oferecesse 1% de seu salário bruto à sua Comunidade de Fé, ficando com os restantes 99% para as demais despesas, não precisaríamos realizar tantas promoções, a fim de arrecadar o necessário para a sobrevivência de nossas atividades pastorais e materiais.

            Finalmente, dar o dízimo justo à Comunidade não é favor e nem deve ser recompensado: antes é dever e compromisso, transformados em Ato de Amor e Gratidão!