Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo, mas para que o
mundo seja salvo por ele” (cf. Jo, 3-17).
“A festa da Exaltação da Santa Cruz,
da qual deriva o rito da ‘Adoração da
Santa Cruz’ na Sexta-feira Santa, tem origem no Oriente, com a celebração
da dedicação das basílicas constantinianas no Gólgota e no Santo Sepulcro, no
dia 13 de setembro de 335. Por volta do século VII, no dia 14 de setembro,
surgiu o costume de expor a relíquia da Cruz aos fiéis que, segundo uma
tradição, fora encontrada neste dia. Esta prática se sobrepõe à da festa da
dedicação das basílicas, sobrepondo-se também o dia 14 ao dia 13.
Em Roma, encontramos testemunhos
desta festa por volta do século VII. Mais tarde, à festa foi acrescentada a
comemoração da vitória de Heráclito sobre os persas em 630, dos quais foram
recobradas as relíquias da Cruz, solenemente levadas de volta a Jerusalém. No
início do século XIII, porém, a festa reforçou aquele segundo motivo com a
prática da veneração das relíquias da Cruz feita pelo Papa e os Cardeais na
Igreja Estacional de São Silvestre, sendo seguida de uma procissão até a
Basílica de São João de Latrão ao canto do Te
Deum. Na Lateranense celebrava-se a hora média do Ofício Divino e depois a
Celebração Eucarística presidida pelo Papa.
A Cruz para
os judeus significa vergonha e escândalo; – castigo reservado ao pior dos bandidos na época de Jesus – para os Romanos, loucura, mas para nós Cristãos, a Cruz é sinal de
Salvação!
A Cruz é um grande sinal de contradição: expressão da morte
ignomínia de Jesus como malfeitor, que provocou questionamentos e gerou
inseguranças na ordem estabelecida pelos poderes religiosos e políticos e, ao
mesmo tempo, sinal de entrega e esvaziamento – kenosis – de Jesus, obediente ao projeto do Pai de salvar a
humanidade (conforme a Carta de São Paulo aos Filipenses), e isso lhe custou a
morte de Cruz. Humilhação e doação de vida.
Apesar do rechaço – lugares e
instituições que não aceitam mais manter uma Cruz em seus espaços públicos – e
da banalização – pessoas que ostentam a Cruz no peito como forma de demarcação
das chamadas tribos urbanas -, a Cruz é para nós cristãos o sinal maior da
nossa adesão a Jesus Cristo e da proclamação de sua ação salvadora.
Exaltá-la por uma festa própria nos
põe no centro da nossa espiritualidade cristã da vida que nasce do ‘dom de si’ de Jesus, para que o mundo
tenha vida. De fato, afirma São Paulo: diferente
dos judeus, que se escandalizaram da Cruz e dos pagãos que afirmam ser uma
loucura perder a vida pelos outros, ‘nós, porém, proclamamos Cristo crucificado,
escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. (...) Pois, o que é loucura de Deus é mais sábio
que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens’ (1Cor 1,23.25).
Há uma semana participamos do Grito
dos Excluídos em nossas Dioceses e Regionais. Como o Mistério de Cristo ilumina
a nossa realidade, não podemos nos esquecer da Cruz dos crucificados de hoje:
pobres, idosos, crianças em risco e sem escola, moradores de rua, minorias,
irmãos e irmãs traficadas e exploradas sexualmente, ‘rebaixados’ da sua condição humana e exaltados por sua condição de
Filhos e Filhas, adquirida pela entrega salvadora de Cristo na Cruz. A
humilhação de Cristo é solidariedade de Deus aos que ainda hoje são rebaixados
e diminuídos.
‘Pusestes no lenho da Cruz a
salvação da humanidade, para que a vida ressurgisse de onde a morte viera. E o
que vencera na árvore do paraíso, na árvore da Cruz fosse vencido’ (cf. Prefácio Próprio da
Festa). A morte veio da árvore do paraíso terrestre por meio de Adão.
Mas, em Cristo, a vida ressurge. E o mal que vencera Adão, foi vencido por
Cristo através da Cruz. A Cruz de Cristo é, portanto, o sinal de sua vitória e
não de sua derrota; sinal da sua glorificação, vencendo a morte” (cf. Roteiros Homiléticos
do Tempo Comum II da CNBB de 2014, pp. 14-19).
Assim como não deve ter sido fácil
ao entendimento humano na época da entrega total de Jesus na Cruz, ver o fim
tão trágico daquele que todos esperavam ser o Senhor todo poderoso, ainda hoje,
muitos não compreendem essa “loucura de Deus”, de deixar seu
Filho entregue ao pior dos castigos, a Cruz. Com o Papa Francisco, afirmamos
que é impossível chegar à Vitória, sem antes passar pela experiência da Cruz! O
mistério da cruz não deve ser compreendido, mas acolhido no tesouro de nossa
fé, que emerge da intimidade com Deus na pessoa de Jesus Cristo. Só quem é, de
verdade, amigo de Jesus, crerá incondicionalmente no mistério da Cruz. Mistério
não se explica, se aceita ou não! É na Cruz que encontramos meios eficazes de
nossa santificação. Pois ela é nosso passaporte para a Ressurreição! Só então
seremos verdadeiros cristãos! Muitas vezes nossa Cruz é alguém muito próximo,
que precisa de nosso carinho, de nosso abraço, de nossa misericórdia e de nossa
doação cheia de amor com sabor divino: totalmente desinteressado e gratuito!
Desejando-lhes
muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço amigo,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Nm 21,4-9; Sl 77(78);
Fl 2,6-11 e Jo 3,13-17).