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quarta-feira, 6 de setembro de 2023

“RIRAM DE MIM NO CONÍCILIO”!

 

O Cardeal Vasconcelos Motta, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, pedindo um Bispo Auxiliar, o recebeu na pessoa do Pe. Romeu Alberti, Diretor Espiritual do Seminário Central Nossa Senhora da Assunção, no Ipiranga, em São Paulo. Amado pelo Clero e muito querido pelos Seminaristas que dirigia espiritualmente, o Pe. Romeu Alberti chamava atenção por sua humildade, zelo e doçura. Se locomovia pela grande São Paulo de lambreta; levantando a batina branca ou cinza até os joelhos, atravessava a cidade.

Em 1964, o Cardeal Motta transferido para a Arquidiocese de Aparecida, foi sucedido pelo então Arcebispo de Ribeirão Preto, Dom Agnelo Rossi, que não precisou de Dom Romeu Alberti, como Bispo Auxiliar. Resolveram, então, enviar o jovem Bispo a Roma, para participar do Concílio Ecumênico Vaticano II.

Durante uma das sessões do Concílio, um dos mais jovens Padres Sinodais, Dom Romeu Alberti, Bispo Auxiliar de São Paulo, sugeriu a ordenação de mulheres como diaconisas. Um de seus argumentos foi a Carta de São Paulo aos Romanos: “Recomendo-vos Febe, nossa irmã, diaconisa da Igreja de Cencréia, para que a recebais no Senhor de modo digno, como convém a santos, e a assistais em tudo o que ela de vós precisar, porque também ela ajudou a muitos, a mim inclusive” (Rm 16,1-2). Outro argumento teria sido, que a maioria dos fiéis da Igreja Católica Apostólica Romana, comprometida com a evangelização, é de mulheres. “O que seria de nossa Igreja sem a presença tão rica e fiel de mulheres em nossas atividades pastorais e comunidades?”, teria dito Dom Romeu.

Ao me contar pessoalmente esse episódio, começou a rir e às gargalhadas me disse: “Riram de mim no Concílio”! “Foi uma risada em coro, ecoando na Basílica de São Pedro. Eu não sabia se ria junto ou me escondia debaixo na mesa a minha frente!” No dia seguinte o Papa Paulo VI chamou Dom Romeu Alberti para almoçarem juntos. Durante o almoço o Santo Padre pediu que Dom Romeu desculpasse as risadas em tom de vaias dos Padres Conciliares. O Papa lhe disse que para a ordenação de mulheres, ainda não teria chagado o tempo, mas que a sugestão de Dom Romeu o inspirara para a reestruturação do Diaconado Permanente. Ambos discutiram a possibilidade, lembrando de experiências ainda embrionárias na Igreja do Rio Grande do Sul, sob o zelo pastoral de Dom Vicente Alfredo, Cardeal Scherer, muito respeitado e querido pela Cúria Romana.

No dia 9 de fevereiro de 1965, Dom Romeu recebeu um comunicado da Nunciatura Apostólica, cuja sede ficava no Rio de Janeiro, de que o Núncio precisava falar com ele. Dia 11 de fevereiro, Festa de Nossa Senhora de Lourdes, padroeira da Igreja Matriz de Apucarana (PR), Dom Romeu recebeu a notícia de que o Papa Paulo VI o nomearia primeiro Bispo Diocesano de Apucarana (PR). A nomeação foi divulgada com a data de 22 de fevereiro do mesmo ano de 1965.

Ao chegar a Apucarana, Dom Romeu Alberti sentiu um “amor à primeira vista”. Uma nova Diocese nascia no Paraná, com aproximadamente 480 mil habitantes, praticamente rural, geograficamente parecia como ele mesmo dizia “uma linguiça”, mais comprida do que larga. Chegou com muita sede de aplicar tudo que ouvira e vivera durante sua participação no Concílio Ecumênico Vaticano II, sendo não poucas vezes incompreendido, principalmente pelo Clero que ainda precisava compreender melhor a abertura das janelas e portas de uma Igreja cheirando a mofo, como afirmara o próprio Papa João XXIII, ao conclamar o Concílio.

Outras curiosidades da nova Diocese com seu primeiro Bispo, escreveremos em breve. Hoje ficamos com a frase que meus ouvidos ouviram muitas vezes, e meu coração tentou assimilar cada vez que aos risos, Dom Romeu Alberti dizia: “Riram de mim no Concílio”!



Pe. Gilberto Kasper - Teólogo

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

“DAI-LHES VÓS MESMOS DE COMER”!

 

A preparação do mês vocacional da Arquidiocese de Ribeirão Preto, em agosto do ano de 1985, foi confiado ao Colégio Santa Úrsula pelo então Arcebispo Metropolitano, Dom Romeu Alberti. Direção, Professores, Alunos, Funcionários e Familiares dos Alunos se empenharam nessa preparação, tornando histórico o mês vocacional em toda a região da Igreja particular de Ribeirão Preto. Não se via e nem se ouvia falar nas Congregações de Religiosas na Arquidiocese. Tratava-se de um convite à promoção vocacional bem mais ampla: vocações sacerdotais, religiosas e leigas.

A Diretora e Priora do Colégio Santa Úrsula, Irmã Maria da Salette Barboza pediu-me que coordenasse o mês vocacional. Eu viera de Bogotá (Colômbia), onde iniciara o Curso de Teologia na Universidade Javeriana dos Jesuítas. Preparava-me e aguardava o visto de estudante para continuar os estudos de Teologia na Universidade Católica de Eichstätt na Alemanha. Um dos requisitos do Seminário daquela Diocese era que o candidato lá chegasse pelo menos, com as então chamadas “Ordens Menores”, os Ministérios de Leitor e Acólito. Uma vez que nos anos de 1983 e 1984 eu lecionara Ensino Religioso e Filosofia no Colégio Santa Úrsula, o Arcebispo achou por bem transferir a Catedral para debaixo do caramanchão do pátio interno do Colégio, instituindo-me nesses ministérios, durante a celebração do encerramento do mês vocacional, no dia 31 de agosto de 1985, às 9 horas, numa linda e ensolarada manhã de sábado. O Coral “Vozes do Santão” animou o canto litúrgico da celebração. Esse coral foi formado com alunos e alunas das disciplinas que eu ministrava. A data coincidia com o Encontro das Prioras e Diretoras das Comunidades e Colégios das Ursulinas do Brasil e do Peru.

O tema daquele mês vocacional foi “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16), o que passou a ser meu lema dos Ministérios de Leitor e Acólito, recebidos numa única celebração. Esta frase foi a que Jesus utilizou quando os discípulos se demonstraram preocupados com aquela multidão que passou o dia ouvindo a pregação do Mestre sobre o Reino de Deus. Tinham apenas dois peixinhos e cinco pãezinhos. Jesus insinuou de que “partilhassem de sua pobreza” para com quem sentia fome. Como Jesus não era “espetaculoso” e sim “espetacular”, quis contar com a comunhão e participação dos seus, para só então abençoar aquele “pouquinho” que eles possuíam, e multiplicar pães e peixes num “tanto”, que alimentou, segundo o Evangelho de São Mateus, cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças. E não esqueçamos que os judeus constituíam famílias com numerosos filhos. Milhares de pessoas se alimentaram por conta do milagre de Jesus, porém, com a participação e comunhão dos discípulos. Quem vive sua fé na Eucaristia ensimesmado, escondendo-a somente para si, anda na contra mão do gesto milagroso do Mestre. Não poucas vezes transferimos responsabilidades ou desanimamos facilmente achando que somos muito insignificantes ou impotentes diante das tantas formas de fome pelas quais passam as pessoas de nosso tempo. Fome de justiça, de liberdade, de trabalho, de moradia, de oportunidades, de paz interior e de uma vida bem mais digna. Devemos fazer a nossa parte. Especialmente os instituídos nos Ministérios de Leitor e Acólito não deveriam ficar limitados a proclamar as leituras ou a distribuir a sagrada comunhão nas celebrações. Deveriam ser exemplos de comunhão, participação e missão nas Comunidades, levando por exemplo, a Palavra e a Sagrada Comunhão aos Enfermos, Idosos e Pessoas que não têm como participar das celebrações. Outrossim, deveriam testemunhar uma vida de verdadeira “partilha da própria pobreza” com os irmãos na fé.

Se o 3º Ano Vocacional do Brasil tem como tema: “Vocação: Graça e Missão” e o lema: “Corações ardentes, pés a caminho” (cf. Lc 24,32-33), nosso lema nunca se desatualizará: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16).

Pe. Gilberto Kasper - Teólogo

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

“BOM” ROMEU ALBERTI!

 

O presente artigo relembra um de nossos Arcebispos de Ribeirão Preto, que governou nossa Igreja particular entre 22 de agosto de 1982 a 6 de agosto de 1988, quando atendeu seu nome ecoando na eternidade, depois de lutar contra uma leucemia. No dia de seu natalício, 21 de abril de 1983, recebeu de presente o diagnóstico de leucemia, cuja enfermidade guardou em sigilo absoluto, ate mesmo de seus familiares e secretário particular. Dom Romeu Alberti foi tão amado pelo povo, que da mais nobre elite às senhoras mais simples, descalças ou calçando sandálias de borracha, o chamavam de “Bom” Romeu Alberti.


Chegando de Apucarana (PR), onde fora o primeiro Bispo Diocesano, foi acolhido por uma multidão na alameda central da Praça da Bandeira em frente a Catedral Metropolitana de São Sebastião, na tarde do dia 22 de agosto, um domingo ensolarado. Sua chegada foi criticada por alguns clérigos, porque o então Vigário Geral, Mons. Horácio Longo, amigo da Família Biagi, o convenceu a chegar com seu carro pessoal de Apucarana até a cidade vizinha de Jaboticabal, onde embarcou num helicóptero gentilmente cedido pela Família Biagi. Logo foi rotulado de ser o Arcebispo dos “ricos”, “usineiros”, em detrimento dos mais surrados e pobres da região. Mal sabiam os que tais comentários faziam, que Dom Romeu era bem mais simples e pobre do que o adjetivavam. Vestia-se com tanta simplicidade, que a mitra muitas vezes se encontrava amassada. Certo dia apareceu com uma meia azul e outra marrom, arrancando gargalhadas de todos os que o avisaram do “descuido” ao calçar meias. Aparecia de camisa de mangas curtas. Só não abria mão da cruz peitoral e do anel episcopal. Alegrava a todos que com ele conviviam. Fazia rir até os mais desapontados com situações em extrema vulnerabilidade, não raras vezes.

Gostaria de testemunhar que Dom Romeu Alberti, sem nenhum juízo de valores, após as celebrações que presidia na Catedral em períodos solenes, como Natal, Passagem de Ano e Páscoa, preferia cear com os mais pobres da cidade. Não fazia tais refeições no Palácio Arquiepiscopal. Em 1984 fui por ele incumbido a leva-lo a Comunidades Faveladas com o porta-malas do Corcel, cheio de presentes que recebia naquelas ocasiões: panetones, bebidas finas, doces, queijos entre tantas outras guloseimas. Parávamos em determinado barraco, aleatoriamente e nos convidávamos a cear com a família que ali residia, ou sobrevivia. Geralmente era um barraco minúsculo com sete ou oito moradores. Comíamos e bebíamos o que tinham a oferecer: pão seco e duro, bolachas Maria, suco ou café bem ralos.

Numa dessas visitas, as cadeiras eram caixas de sabão. Ao sentar-se sobre uma daquelas caixas, Dom Romeu caiu de costas e pernas para o ar, quebrando com seu peso a caixa frágil de sabão. Foi uma festa e muitas risadas.

Ao final da ceia juntamente com os anfitriões, Dom Romeu convidava os membros daquela Família e alguns vizinhos, para aproximarem-se do Corcel. Pedia para abrir o porta-malas e começava a distribuir os presentes que levara. A alegria estampada no rosto, especialmente das crianças, era para nós o maior presente que alguém possa desejar. Ao retornar para o Palácio, Dom Romeu pedia que isso ficasse em sigilo absolto. Ninguém podia saber onde ceara.

Encontro-me em Ribeirão Preto desde 1982, porque Dom Romeu Alberti não me deixou retornar para a cidade de Novo Hamburgo (RS). Enquanto estudei em Bogotá na Colômbia, fez questão de me visitar numa de suas idas ao CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano), e quando estudei em Eichstätt na Alemanha me visitou três vezes, sendo que na última vez, quando celebrava seu Jubileu de Prata de Ordenação Episcopal a 24 de maio de 1987, quis ordenar-me diácono, mesmo que precocemente.

Desde a eternidade, debruço minha esperança sobre a fé, de que “Bom” Romeu Alberti olha por nossa Arquidiocese e nossas Vocações. Era um grande incentivador da então chamada “Obra das Vocações Sacerdotais” – OVS. Arrisco-me a dizer, e só a mim mesmo, de que se tratava de um santo homem, Dom Romeu Alberti, que viu na festa da Transfiguração do Senhor em 1988, o próprio Cristo transfigurado!!! Que privilégio! Celebrou sua páscoa exatamente 10 anos após a de São Paulo VI!

Pe. Gilberto Kasper Teólogo