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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Homilia do Papa Francisco


Viagem Apostólica ao Brasil

Homilia do Papa Francisco

Catedral de São Sebastião no Rio de Janeiro,

Sábado, 27 de julho de 2013
 

Amados Irmãos em Cristo,

Vendo esta catedral lotada com Bispos, sacerdotes, seminaristas, religiosos e religiosas vindos do mundo inteiro, penso nas palavras do Salmo da Missa de hoje: «Que as nações vos glorifiquem, ó Senhor» (Sl 66). Sim, estamos aqui reunidos para glorificar o Senhor; e o fazemos reafirmando a nossa vontade de sermos seus instrumentos, para que não somente algumas nações mas todas glorifiquem o Senhor. Com a mesma parresia – coragem, ousadia – de Paulo e Barnabé, anunciemos o Evangelho aos nossos jovens para que encontrem Cristo, luz para o caminho, e se tornem construtores de um mundo mais fraterno. Neste sentido, queria refletir com vocês sobre três aspectos da nossa vocação: chamados por Deus; chamados para anunciar o Evangelho; chamados a promover a cultura do encontro.

1. Chamados por Deus. É importante reavivar em nós esta realidade que, frequentemente, damos por descontada em meio a tantas atividades do dia-a-dia: «Não fostes vós que me escolhestes, mas eu que vos escolhi», diz-nos Jesus (Jo 15,16). Significa retornar à fonte da nossa chamada. No início de nosso caminho vocacional, há uma eleição divina. Fomos chamados por Deus, e chamados para permanecer com Jesus (cf. Mc 3, 14), unidos a Ele de um modo tão profundo que nos permite dizer com São Paulo: «Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim» (Gal 2, 20). Este viver em Cristo configura realmente tudo aquilo que somos e fazemos. E esta “vida em Cristo” é justamente o que garante a nossa eficácia apostólica, a fecundidade do nosso serviço: «Eu vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça» (Jo 15,16). Não é a criatividade pastoral, não são as reuniões ou planejamentos que garantem os frutos, mas ser fiel a Jesus, que nos diz com insistência: «Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós» (Jo 15, 4). E nós sabemos bem o que isso significa: Contemplá-lo, adorá-lo e abraçá-lo, particularmente através da nossa fidelidade à vida de oração, do nosso encontro diário com Ele presente na Eucaristia e nas pessoas mais necessitadas. O “permanecer” com Cristo não é se isolar, mas é um permanecer para ir ao encontro dos demais. Vem-me à cabeça umas palavras da Bem-aventurada Madre Teresa de Calcutá: «Devemos estar muito orgulhosas da nossa vocação, que nos dá a oportunidade de servir Cristo nos pobres. É nas favelas, nos «cantegriles» nas Villas miseria, que nós devemos ir procurar e servir a Cristo. Devemos ir até eles como o sacerdote se aproxima do altar, cheio de alegria» (Mother Instructions, I, p.80). Jesus, Bom Pastor, é o nosso verdadeiro tesouro; procuremos fixar sempre mais n’Ele o nosso coração (cf. Lc 12, 34).

2. Chamados para anunciar o Evangelho. Queridos bispos e sacerdotes, muitos de vocês, senão todos, vieram acompanhar seus jovens à Jornada Mundial. Eles também ouviram as palavras do mandato de Jesus: «Ide e fazei discípulos entre todas as nações» (cf. Mt 28,19). É nosso compromisso ajudá-los a fazer arder, no seu coração, o desejo de serem discípulos missionários de Jesus. Certamente muitos, diante desse convite, poderiam sentir-se um pouco atemorizados, imaginando que ser missionário significa deixar necessariamente o País, a família e os amigos. Recordo o meu sonho da juventude: partir missionário para o longínquo Japão. Mas Deus me mostrou que o meu território de missão estava muito mais perto: na minha pátria. Ajudemos os jovens a perceberem que ser discípulo missionário é uma consequência de ser batizado, é parte essencial do ser cristão, e que o primeiro lugar onde evangelizar é a própria casa, o ambiente de estudo ou de trabalho, a família e os amigos.

Não poupemos forças na formação da juventude! São Paulo usa uma bela expressão, que se tornou realidade na sua vida, dirigindo-se aos seus cristãos: «Meus filhos, por vós sinto de novo as dores do parto até Cristo ser formado em vós» (Gal 4, 19). Também nós façamos que isso se torne realidade no nosso ministério! Ajudemos os nossos jovens a descobrir a coragem e a alegria da fé, a alegria de ser pessoalmente amados por Deus, que deu o seu Filho Jesus para nossa salvação. Eduquemo-los para a missão, para sair, para partir. Jesus fez assim com os seus discípulos: não os manteve colados a si, como uma galinha com os seus pintinhos; Ele os enviou! Não podemos ficar encerrados na paróquia, nas nossas comunidades, quando há tanta gente esperando o Evangelho! Não se trata simplesmente de abrir a porta para acolher, mas de sair pela porta fora para procurar e encontrar. Decididamente pensemos a pastoral a partir da periferia, daqueles que estão mais afastados, daqueles que habitualmente não freqüentam a paróquia. Também eles são convidados para a Mesa do Senhor.

3. Chamados a promover a cultura do encontro. Em muitos ambientes, infelizmente, ganhou espaço a cultura da exclusão, a “cultura do descartável”. Não há lugar para o idoso, nem para o filho indesejado; não há tempo para se deter com o pobre caído à margem da estrada. Às vezes parece que, para alguns, as relações humanas sejam regidas por dois “dogmas” modernos: eficiência e pragmatismo. Queridos Bispos, sacerdotes, religiosos e também vocês, seminaristas, que se preparam para o ministério, tenham a coragem de ir contra a corrente. Não renunciemos a este dom de Deus: a única família dos seus filhos. O encontro e o acolhimento de todos, a solidariedade e a fraternidade são os elementos que tornam a nossa civilização verdadeiramente humana.

Temos de ser servidores da comunhão e da cultura do encontro. Permitam-me dizer: deveríamos ser quase obsessivos neste aspecto! Não queremos ser presunçosos, impondo as “nossas verdades”. O que nos guia é a certeza humilde e feliz de quem foi encontrado, alcançado e transformado pela Verdade que é Cristo, e não pode deixar de anunciá-la (cf. Lc 24, 13-35).
 
Queridos irmãos e irmãs, fomos chamados por Deus, chamados para anunciar o Evangelho e promover corajosamente a cultura do encontro. A Virgem Maria seja o nosso modelo. Na sua vida, Ela deu «exemplo daquele afeto maternal de que devem estar animados todos quantos cooperam na missão apostólica que a Igreja, tem de regenerar os homens» (Conc. Ecum. Vat. II, Cost. dogm. Lumen gentium, 65). Seja Ela a Estrela que guia com segurança nossos passos ao encontro do Senhor. Amém.
 
 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

HOMILIA PARA O DÉCIMO-SÉTIMO DOMINGO COMUM


Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

“Senhor, ensina-nos a rezar,

como também João ensinou a seus discípulos” (Lc 11,1b).

 

            “Temos todos um Pai comum. Foi Jesus que nos ensinou a chamar Deus de Pai, nosso Pai, o que foi ousado e escandalizou muitos religiosos de então. Aparentava ser verdadeira blasfêmia. Afinal de contas ‘pai’ tem a ver com ‘parente’, e parente mais próximo. Portanto, a ousadia de Jesus de chamar a Deus de pai soava como se ele dissesse que Deus é nosso ‘parente’ mais próximo e que nós somos seus filhos e filhas: existe um ‘parentesco’ entre Deus e nós. E não é assim? Fomos, de fato, criados ‘à imagem e semelhança de Deus’ (Gn 1,27) e agora somos renascidos em Cristo.

            Gosto de pensar: queremos uma noção mais próxima de como Deus é? Basta olhar para o rosto do nosso semelhante. Somos semelhantes ao nosso Criador. Não somos deuses, mas parecidos com Deus! Muitas vezes agimos uns sobre os outros, como se fôssemos seus deuses, ou seus donos. O namorado diz para sua namorada: ‘eu te adoro!’ e vice-versa. Nós nos adoramos não como deuses, mas como semelhantes e isso nos torna ainda mais lindos. Isso nos torna Anjos uns dos outros! Por conta disso, também penso que não existem pessoas feias. As pessoas foram criadas lindas, porque à imagem e semelhança de Deus. Mas elas se fazem feias, na medida em que se distanciam desse ‘evento’ ou ‘parentesco’, cuja novidade nos é trazida pela Palavra proclamada neste Décimo-Sétimo Domingo Comum do Ano Litúrgico!

            Jesus resgatou a dignidade que havíamos perdido e voltamos a ser família de Deus, povo de Deus. É nesta experiência de vida nova que nos unimos, de maneira especial, aos milhares de jovens na Jornada Mundial da Juventude, que neste domingo está se encerrando. Que o Espírito Santo de Deus ilumine a juventude de hoje para que, iluminada pela Palavra de Deus, sinta-se fortalecida para o testemunho da fé em Cristo.

            ‘Na eucaristia descobrimos o rosto de Deus nosso Pai, que sempre se mostra favorável quando o invocamos em nossas necessidades. O tema da Jornada Mundial da Juventude que reuniu desde o dia 23 de julho milhares de jovens no Rio de Janeiro, com a presença de nosso amado Papa Francisco, é: ‘Ide e fazei discípulos entre todas as nações’ (Mt 28,19)’ e nos motiva a ser discípulos e missionários de Jesus Cristo, a serviço do evangelho e do reino de Deus.

            Da mesma forma que Abraão, vamos nos pôr na presença de Deus, que quer nos comunicar sua palavra de salvação. Ele, que deu vida nova no batismo, agora nos dá a conhecer seu rosto e seu amor.

            A oração insistente e sincera do justo em favor do povo chega ao coração de Deus. Jesus nos ensina a pedir com insistência o que é fundamental na vida. Pelo batismo morremos e ressuscitamos com Cristo e nos tornamos novas criaturas. Já a oração eucarística, como ação de graças, súplica e intercessão universal, possui os múltiplos aspectos da oração perfeita de Cristo na cruz’ (cf. Liturgia Diária de Julho de 2013 da Paulus, pp. 83-86).

            Existem cristãos que, julgando-se esclarecidos, afirmam que as orações do nosso povo são muito egoístas, pois são quase sempre orações de pedido. Geralmente somos mais pidões do que agradecidos, também em nosso modo de rezar, até quando o fazemos conscientemente, como diálogo com Deus! Interessante que a Palavra deste Domingo acentua o contrário: é importante pedir, e até insistir no pedido. Abraão com seus incansáveis pedidos quase salvou as cidades de Sodoma e Gomorra. Infelizmente, as cidades eram ruins demais. Jesus, por seu turno, ensina aos discípulos o Pai-nosso, uma oração de pedido. O Pai-nosso pede inicialmente que a vontade de Deus seja feita. Ora, uma vez que rezamos em harmonia com a vontade e o desejo de Deus, podemos pedir bastante. O que não me parece justo é rezarmos para que a vontade seja feita, desde que coincida com a nossa. Precisamos antes, discernir qual é a vontade de Deus para conosco. Gostei muito, quando na sua homilia de posse, nosso Arcebispo Metropolitano, Dom Moacir Silva, pediu-nos que rezássemos por ele. ‘Rezem por mim. Rezem para que eu não atrapalhe a graça de Deus em meu ministério...’. Quanta coragem e ousadia a de nosso amado Pastor! Mostrou-se um Homem de Deus, que quer sempre discernir a vontade e a graça divinas de Deus em sua vida.

            Será a oração em forma de pedido uma forma de oração mais egoísta que a meditação, a louvação, o agradecimento, a adoração? Parece que não! Na verdade, agradecer é a outra face do pedir. Quem agradece, gostou. Por que não pedir então? É reconhecer a bondade do doador! Como o frei que, depois de laudo almoço na casa de uma benfeitora, testemunhou sua gratidão com estas palavras: ‘Senhora, não sei como agradecer... será que posso repetir aquela gostosa sobremesa?’.

            De acordo com o espírito do Pai-nosso, devemos pedir antes de tudo a realização daquilo que Deus deseja: sua vontade, seu Reino. Ora, uma vez assentada esta base, pode-se pedir – com toda a simplicidade – o pão de cada dia, saúde, vida e todos os demais dons que Deus nos prepara. Inclusive, o perdão de nossas faltas. Só não se deve pedir a Deus o que Deus não pode desejar: a satisfação de nosso egoísmo. E sempre se deve lembrar que Deus sabe melhor do que nós o que nos convém. Podemos insistir naquilo que achamos sinceramente nosso bem... mas Deus sabe melhor.

            É importante pedir, pois pedir também compromete! Depois de ter pedido, a gente já não pode dizer: ‘Não pedi!’. Comprometer-nos com Deus e com aquilo que pedimos. Não é como no supermercado, onde você entra, olha e sai sem comprar. Assim as preces dos fiéis, na celebração da comunidade, devem ter sentido de compromisso: devemos querer mesmo que elas se realizem, e nos oferecemos a Deus para colaborar na realização daquilo que pedimos. Pedir é comprometer-se. Imaginemos Deus ouvindo nossas preces, como esta: ‘Perdoai-nos assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...’ Se não perdoar o meu irmão, como peço a Deus que me perdoe? Se pedimos a Deus saúde, não é para gozar egoisticamente a vida, mas para servir melhor. ‘Quem não vive para servir, não serve para viver!’. Se pedimos paz, não é para sermos deixados em paz, mas para nos dedicarmos à comunhão fraterna. Se pedimos por nossos irmãos e irmãs mais pobres, é porque queremos ajudá-los efetivamente. Importa saber como pedimos (cf. Tg 4,3) (cf. Roteiros Homiléticos do Tempo Comum I de 2013 da CNBB, pp. 86-92).

            Saibamos rezar com mais consciência e fé madura, a oração que o Senhor nos ensinou, ao pedido de seus discípulos: O Pai-nosso! São sete pedidos. Será que nós, ao rezamos esta belíssima oração, temos plena consciência do que nela estamos pedindo? E se Deus realmente ouvisse nossos pedidos, como seria nossa vida, nossas relações com nossos semelhantes, aqueles que nos permitem “uma noção do rosto de Deus”?

            Sejam todos sempre abençoados. Com ternura e gratidão, o abraço amigo e fiel,

Pe. Gilberto Kasper

(Ler Gn 18,20-32; Sl 137(138); Cl 2,12-14 e Lc 11,1-13).

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