Pesquisar neste blog

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS - TRIGÉSIMO-SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!


             O tempo nos remete ao entardecer do ano litúrgico de 2017. Isso tudo vai favorecendo a reflexão sobre a expectativa do final dos tempos. Como será e o que vai acontecer? Assim como quando se é convidado para a festa de um casamento, logo se pensa nos detalhes, os presentes, as vestes, os convivas, o cardápio do banquete etc. Mas o Evangelista não está preocupado em satisfazer a curiosidade do protocolo do final dos tempos, mas em como, hoje, viver em atitude de vigilância ativa para não ser surpreendido e ver as portas do banquete se fecharem. A parábola se constitui numa exortação à vigilância face à Segunda vinda do Senhor – o noivo.
            A sabedoria não é algo reservado a alguns iluminados, mas pode ser obtida por quem a ama e a busca com ardor e empenho. Ela não está apenas na escola, na Igreja ou nos livros, mas se deixa encontrar por aqueles que saem à sua procura. Nas ruas e avenidas, pessoas cultas e sem instrução se encontram, e é justamente nesses momentos que ela se revela. Na convivência aprendemos a ser sábios. Qualquer encontro pode tornar-se uma escola de sabedoria.
            O evangelho de São Mateus compara o reino de Deus à parábola das dez jovens – cinco prudentes e cinco insensatas – que aguardam o noivo. Como este acaba atrasando, todas caíram no sono e dormiram. Quando anunciam que o noivo está chegando, nem todas estão com as lamparinas abastecidas para ir-lhe ao encontro. A parábola alerta sobre a necessidade da vigilância. A vinda do noivo (Jesus) no fim dos tempos é imprevista. É preciso que todos os que querem entrar no seu reino e dele participar estejam preparados mediante a prática do amor e da justiça.
            São Paulo à Comunidade de Tessalônica, em sua primeira carta trata da vinda do Senhor, esclarecendo uma dúvida quando vier o Senhor, o que acontecerá com os que já morreram? Paulo tranquiliza a comunidade com os seguintes argumentos: o cristão é pessoa que carrega dentro de si a esperança; se cremos que Cristo ressuscitou, devemos crer que os mortos ressuscitarão e estarão com o Senhor; na vinda do Senhor, vamos nos encontrar todos juntos (tanto os que já morreram como os que ainda vivem).
            A imagem das bodas é muito feliz, à espera do noivo que chega noite adentro, as virgens previdentes (munidas de óleo para suas lamparinas) vigiam e na chegada, lhe fazem cortejo e ingressam na sala preparada para a festa. Enquanto isso, outras cinco se veem impedidas de participar da festa por suas lamparinas estarem desabastecidas de óleo. A questão aqui é a falta do óleo. Mas de que óleo o autor se refere?
            Na Sagrada Escritura, o óleo (azeite) sempre está associado à presença do Espírito Santo, unção, santificação, purificação e outros termos afins. Na falta, não se empresta experiência com o Espírito Santo de Deus (Zc 4; Is 61,1); ou a pessoa tem ou não tem. Para os Padres da Igreja, como Santo Agostinho, “o azeite é símbolo do amor”, que não se pode comprar, mas que se recebe como dom, se conserva no íntimo e se manifesta nas obras. Na vida presente, viver com sabedoria, consiste na prática das obras da justiça e da misericórdia do Reino.
            Como viveremos o alimento da Palavra de Deus proclamada neste Trigésimo-Segundo Domingo do Tempo Comum ao longo da semana?  Como praticamos a justiça e a misericórdia em nossas relações familiares, sociais, políticas e nem por último, eclesiais? Temos nossas lamparinas abastecidas ou vivemos na escuridão da mentira, da hipocrisia, da falsa fraternidade? Quantas vezes, nós nos sentimos juízes (pequenos deuses) sobre os outros? Julgamos, condenamos, excluímos tantas vezes aqueles que não pensam como nós; aqueles que nos parecem inconvenientes; aqueles que não nos elogiam ou bajulam? Penso que a Palavra de Deus nos convida a reabastecermos nossas lamparinas de amor, perdão, misericórdia e acolhida aos que tantas vezes deixamos de lado. Como é perigoso sermos contratestemunhas do verdadeiro amor de Deus entre nós, machucando com cicatrizes muitas vezes doloridas e incorrigíveis o rosto da verdadeira Igreja de Jesus Cristo, adonando-nos dela, ao invés de sermos simplesmente seus servos, mais inúteis do que nossos cargos, funções e prestígios que nos revestem não poucas vezes de soberba, mania de grandeza, carreirismo, luxo com apelido de bom gosto, sem falar na estupidez da inveja!
            Se nossas lamparinas não servirem para iluminar o caminho de nossos irmãos, o azeite que as acendem não é bom. O verdadeiro azeite ou óleo que acende nossas lamparinas nos é concedido desde o nosso Batismo, dia em que nos tornamos responsáveis uns pelos outros, numa Igreja verdadeiramente missionária, ministerial, misericordiosa e amorosa. Isso nos convida mais uma vez a uma profunda e verdadeira conversão pessoal, eclesial, pastoral e social.

            Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, meu abraço,

Pe. Gilberto Kasper
(Ler: Sb 6,12-16; Sl 62(63); 1Ts 4,13-18 e Mt 25,1-13)
Fontes: Liturgia Dária da Paulus de Novembro de 2017, pp. 48-51 e Roteiros Homiléticos da CNBB do Tempo Comum II (Novembro de 2017), pp. 73-77.

           

           



quarta-feira, 1 de novembro de 2017

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS - SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS


Queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Alegremo-nos todos no Senhor,
celebrando a festa de Todos os Santos.
Conosco alegram-se os anjos e glorificam o Filho de Deus”.

            Celebrando a Solenidade de Todos os Santos de Deus, comungamos com aqueles que já se encontram na casa do Pai e vivem em plenitude as bem-aventuranças. Nós também somos proclamados felizes, porque formamos a grande família de Deus e procuramos seguir a multidão dos que nos deixaram exemplo de fidelidade e amor.
            A multidão dos fiéis seguidores de Jesus, filhos e filhas amados pelo Pai, reúne-se numa celebração celestial. Ainda em vida são proclamados felizes porque depositaram sua confiança em Deus.
            Todos os que se mantêm fiéis a Cristo serão vitoriosos. As bem-aventuranças são o caminho da santidade proposto por Jesus. Somos filhos e filhas de Deus, pois ele é nosso Pai, e seremos semelhantes a ele.
            A Eucaristia transforma-nos, lenta e progressivamente, em seres capazes de contemplar o Pai unidos a todos os que são salvos.
            A celebração de Todos os Santos é a festa da santidade anônima. Da santidade entendida, em primeiro lugar, como dom de Deus e resposta fiel da criatura humana. Torna-se impossível enumerar todos os santos, tido como sinais da manifestação maravilhosa da ação de Deus. A santidade pode ser comparada a um grande mosaico que reflete a grandeza da única santidade de Deus.
            Cada santo é um exemplar único e exclusivo. Não podemos pensar a santidade como um produto em série. A comemoração de todos os santos nos abre à imprevisibilidade do Espírito Santo.
            A multiplicidade de santos faz deles um modelo perfeito para a vivência dos carismas pessoais e para a diversidade de opções no seguimento de Jesus e no serviço à Igreja e à sociedade.
            Quando veneramos ou falamos de um santo de nossa devoção, somos tentados a contemplá-lo (a) pela ótica perfeccionista. “Ele foi perfeito”, “Um super-humano”. Não! Os santos, antes de tudo, foram pessoas comuns. Eles fizeram sua caminhada de vida seguindo os passos de Jesus. Participaram da realidade do povo santo e pecador. Contudo, eles se destacaram na vivência radical do ideal proposto pelas bem-aventuranças. Foram pessoas que, por seu modo de viver a Boa-Nova, marcaram significativamente a sociedade de seu tempo e se transformaram em referenciais atualizados para a história.
            O convite evangélico à santidade é proposto a todos. Não é uma realidade impossível de alcançar. Tudo depende do vigor com que se vive o ideal das bem-aventuranças na relação com Cristo e nos compromissos inerentes à vida. Eu e você podemos ser santos. Não importa se somos pessoas de muitas qualidades ou não. O que conta é que sejamos pessoas extraordinárias pela vivência do programa de Jesus resumido nas bem-aventuranças.
            Fica mais uma vez entre nós a pergunta crucial: como ser santo? O que significa ser santo? A liturgia vai nos conduzir para mais perto da santidade de Deus.    
Ouve-se frequentemente de bons lábios cristãos algumas frases em relação à santidade, como: “Eu não nasci para ser santo...”. “Não sirvo para ser santo...”. “Não sou santo, logo não tenho culpa...” Gosto de pensar que tais cristãos não compreendem o próprio Batismo. O Batismo torna-nos seres divinizados, ou seja, candidatos à santidade! Não creio que sejam as coisas boas que conseguimos realizar, nem as coisas más que praticamos, por vezes, involuntariamente, que nos conduzem à santidade, porém o esforço empreendido por fazer de tudo para ser bondoso, humilde, servo e anjo para os irmãos, vivendo uma relação de ternura constante. Quem sabe, fazendo uma listinha de esforços diários nos ajude a conquistar a santidade proposta a todos os filhos e filhas de Deus, nascidos do “útero da Igreja, a Pia Batismal!” Já paramos para pensar, com quantos santos convivemos ao longo de nossa vida, mesmo que não reconhecidos, oficialmente, por decretos de beatificações ou canonizações?
            Não deixemos para amanhã, nem mesmo para daqui há pouco: comecemos já nosso esforço por sermos santos, sendo anjos uns dos outros. Só quem é simples e bondoso, sabe o quanto é magnífica a ante-sala da santidade!
                        Desejando-lhes, por intercessão de Todos os Santos, muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço amigo,

Pe. Gilberto Kasper
(Ler Ap 7,2-4.9-14; Sl 23(24); 1 Jo 3,1-3 e Mt 5,1-12).

Fontes: Liturgia Diária da Paulus de Novembro de 2017, pp. 30-33 e Roteiros Homiléticos da CNBB do Tempo Comum II (Novembro de 2017), pp. 66-72.

POR QUE TANTO MEDO DA MORTE?

Pe. Gilberto Kasper

Mestre em Teologia Moral, Licenciado em Filosofia e Pedagogia, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Docente e Coordenador da Teologia na Faculdade de Ribeirão Preto da UNIVERSIDADE BRASIL e UNIESP S.A., Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Assessor da Pastoral da Comunicação e Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista.

            Se há alguns poucos anos falar de sexo abertamente era tabu, hoje é tabu falar em "morte". Por que tanto medo da morte? A grande certeza que vivemos, é que um dia morreremos, no entanto "morremos de medo de morrer...". Cada vez que a morte passa por perto, ou me encontro diante dela através do exercício de meu ministério, encomendando alguma pessoa falecida, meu questionamento é em relação à vida que levo! A morte é uma excelente oportunidade de melhorar minha qualidade de vida. Geralmente deixamos para depois, as mudanças que talvez tivessem de serem revistas logo. É bom não sabermos o dia e a hora de nossa morte, mas quando vier, e nosso nome ecoar na eternidade, não terá outro jeito, a não ser morrer! Há quem chama a morte de segundo parto. O primeiro acontece quando deixamos o útero materno, que geralmente é aconchegante e delicioso. Talvez por isso a criança, ao nascer chora. O segundo parto, é deixar o "útero da terra". Por mais difícil que seja viver, ninguém quer partir. A morte dói, nos faz chorar e traz vazio com sabor de saudade inexplicável.
Nossa vida poderia ser comparada a uma viagem de ônibus. Quem ainda não andou de ônibus? Quando nascemos, entramos num ônibus, que é a vida terrena. A única certeza que temos é que há um lugar reservado para nós. Uma poltrona. Não sabemos quem serão nossos companheiros de viagem. Apenas sabemos que a poltrona reservada para nós deverá ser ocupada. Às vezes, ocupamos a poltrona do outro, e isso nos traz constrangimentos. Já assisti muitos "barracos" em ônibus cuja mesma poltrona estava reservada para duas pessoas. Não sabemos quem serão nossos pais, irmãos, amigos, parentes, enfim...
Nossa única missão é tornar a viagem a mais agradável possível. Às vezes há pessoas que tornam a viagem insuportável; outras vezes a viagem é agradável!
Há também o bagageiro. Nossas coisas não podem ocupar o lugar dos outros, mas deve caber em nosso próprio bagageiro do ônibus, a vida!
O ônibus, de vez em quando pára na rodoviária. Se a viagem de ônibus é a vida terrena, a rodoviária é a morte. Ninguém gosta da rodoviária: há cheiro de banheiros, de óleo diesel, barulho de ônibus chegando e saindo, ninguém se conhece, muita gente se esbarrando ou até se derrubando. Há sempre uma incerteza, um friozinho na rodoviária que arrepia nossa espinha, que é a morte. Ninguém gosta da rodoviária: todos passam por ela porque precisam, mas não porque gostam. Haverá um momento em que nosso nome será chamado no alto-falante da rodoviária. Então precisaremos descer do ônibus da vida. Se tivermos enviado algum bilhete, uma carta, feito um telefonema ou até mesmo enviado um e-mail para a eternidade, avisando nossa chegada, não precisaremos ter medo, porque Deus estará esperando por nós. O bilhete, a carta, o telefonema, o e-mail são nossa maneira de viver a fé, a esperança e a caridade através de nossa relação conosco, com Deus e com os outros!

Assim Deus estará esperando-nos na rodoviária da morte. Seremos identificados e acolhidos por Ele, de acordo com o que fomos e nunca com o que tivemos. Se Deus não tiver tempo, pedirá ao Seu Filho Jesus para buscar-nos e conduzir-nos à morada eterna. Se de tudo Jesus também não tiver tempo, Nossa Senhora nunca nos deixará perdidos ou esperando na rodoviária da morte. Ela estará lá, de braços abertos, para receber-nos e levar-nos à presença de Deus, colocando-nos em Seu Eterno Colo de Amor. É o que rezamos sempre: "...rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém!"